segunda-feira, 5 de abril de 2010
Um encontro com Martinho
Fui assistir Martinho da Vila e sua filha Maíra na Sala Cecília Meireles semana retrasada e ainda guardo na memória o significado daquele encontro pra mim. Eu havia estado no Festival de Cinema do Rio, aonde tive a honra de assistir, ao lado dele e de toda a família, a um belo documentário sobre sua vida. Descubro um pouco desse grande artista todos os dias.
Comprei ingresso na arquibancada, mas a sala estava vazia, ninguém conhecia Maíra. Consegui lugar na primeira fila e desfrutei de perto de um encontro raro numa tarde de domingo. Todo de branco, Martinho rege um show intimista regado com a velha e conhecida malemolência que lhe deu tanto estilo. Acompanhada do pandeiro, sua fala se confunde com canções, histórias e lembranças que brotam do peito aberto e sorriso largo, olhando nos olhos da gente e se divertindo.
Uma mistura de histórias e canções, palavras com notas musicais, faz daquele show a sua vida. O pandeiro, companheiro de estribilho, é substituido aos poucos pelo piano de Maíra Freitas, a quem ele oferece o palco e a companhia. O dueto pai e filha e a mãe na platéia faz da última canção o eterno estribilho: ex-amor gostaria que tu soubesses o quanto que eu sofri ao ter que me afastar de ti...
A grande surpresa da noite é Maíra, a nova herdeira do som e do improviso. Também compõe, conta histórias e canta com estilo, fazendo sorrir o pai envaidecido. Nosso grande poeta negro além de manter o fôlego e o ritmo, transmite seu talento com rara maestria. É na simplicidade da voz macia de Maíra que renasce o talento do eterno menino, lambedor de crias.
Eliane Martins
sábado, 20 de março de 2010
Minha primeira colagem

Novamente de volta, tentando colocar as postagens em dia... sem muita regra, ritmo ou definição de rotina.
Hoje é sábado e consegui sair pra fazer compras, ver duas exposições, ir ao teatro e ainda esticar numa pista de dança com os amigos. Ufa! são quatro da manhã e eu nem acredito que estou viva!
As compras foram frustradas, o banco cometeu um engano e bloqueou meu cartão, ai que vergonha quanto acontece isso! Foi o sistema, uma hora depois eles me ligam de um número desconhecido e falam de um problema sistêmico. Cercada de palavreados bonitos e mil pedidos de desculpas, concluí que não devia gastar aquela grana, o sistema pressentiu isso. Não precisava comprar tantas coisas em um só dia.
Fui ao teatro retirar meu ingresso antecipado, a Bárbara elogiou o espetáculo, não queria correr o risco de perder o grupo Tapa em seu penúltimo dia no Rio. E sabia que com a força da Bárbara, se eu deixasse pra cima da hora, seria impossível.
Enquanto aguardava o espetáculo me distraí com duas curiosas exposições. Uma no Museu da Justiça Federal reuniu um grupo de deficientes físicos. Essa mistura de arte com filantropia parece esquisita, mas apesar disso alguns trabalhos são belíssimos, especialmente o do curador. Ele brinca com a aquarela e só por ele já valeria a visita.
Algumas esculturas de ferro, feitas com parafusos e outros objetos conhecidos, davam vida a personagens como Dom Quixote e Cartola, além de alguns trabalhos com argila... Pra finalizar, uma exposição de fotografia no andar de cima e o passeio pelos arredores do museu, transformado em mais um presente pra cidade. Lindo!
De volta ao museu da CEF, na Barroso, me perdi na Pintura em Pânico logo na entrada, só conseguindo largar a oficina de colagem ao me lembrar da fila no andar de cima. Mas vou voltar pra fazer mais colagens, adorei o exercício.
Enfim o espetáculo, um bom teatro como há algum tempo não via. "O Ensaio" reúne bons atores, uma direção honesta, cenário cuidadoso e limpo, além de um belo figurino. Não sou Bárbara Eliodora e nem li o que ela escreveu. Mas saí do teatro feliz por ter ido.
Pra completar a noite uma pista e dança e eu acreditando que valeria a pena esticar mais um pouquinho. Se não fosse pela companhia dos amigos, da noite linda, da cerveja gelada de algumas caras bonitas, eu choraria por meus pés doídos. Depois de uma hora e meia do lado de fora, na fila, enfrentei um lugar superlotado e prometi pra mim mesma: Maracangalha, nunca mais! Nem morta eu repito esse equívoco.
A cidade oferece diversidades e eu não me canso de esbarrar com gringos em todos os lugares. Uma babel de mexicanos, portugueses, chilenos e franceses na fila pra comprar bebidas foi o momento mais divertido. Porque de resto, muito pisão no pé e muita fila.
Um taxista com sotaque da roça que não sabia direito o caminho me deixou na porta de casa e esperou que eu entrasse pra dar partida. A feira da Glória começa a ser montada, já é quase domingo. Amanhã vou ver o filme do Eric Glauber, quem sabe eu escrevo mais um pouquinho?
Eliane Martins
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Noites Cariocas, um minuto de felicidade

Uma feliz surpresa encerrou meu domingo de carioca, orgulhosa de pertencer a uma cidade que, de tão maravilhosa, vez por outra põe de lado as suas mazelas e comemora. Um encontro musical dos mais raros reuniu no mesmo palco uma estirpe rara de músicos e cantores, nos presenteando com arranjos inéditos e inesquecíveis.
Deixando de lado os que não saberia citar, destaco a presença de Yamandu Costa ao lado de Hamilton de Holanda, um encontro inesquecível. Sem falar de Roberta Sá, que com sua voz estonteante fez juz ao nosso mestre das cordas, num duo de arrepiar! Pra animar a festa, Mart'nália com sua ginga e irreverência, quebra o tom cerimonioso do encontro, fazendo o povo levantar.
Elza Soares, trazida pelos braços pelo anfitrião Pedro Luis, encerra a festa com sua voz rascante e ares de imortalidade. O pé torcido, que a obriga a permanecer sentada numa cadeira de rainha, não diminui a força com que conduz o samba, até sair de cena com seu microfone ligado, impertinente a cantar por detrás do palco.
Num espaço lindo à beira mar - que exibia no fundo o outro lado da cidade e a ponte que a separa - se manteve cercado pela brisa revitalizante da noite, restauradora de esperanças. Ao som de Cidade Maravilhosa nos despedimos, com a felicidade que deixa na memória um gosto de coisa restaurada.
domingo, 17 de janeiro de 2010
Sopros de vida - o primeiro espetáculo do ano

A nova temporada de teatro 2010, no CCBB, nos dá de presente Nathalia Timberg e Rosamaria Murtinho numa montagem requintada, cuja parceria torna impossível distinguir qual das duas atrizes é mais talentosa. Com vigor, jovialidade e intenso brilho dramático, o espetáculo traz para a cena o velho jogo de rivalidade entre amante e esposa. Explorado pela direção com sutileza e habilidade, o texto revira ao avesso aspectos comoventes do mundo feminino, presentes em uma geração da qual ambas fazem parte.
O duelo das personagens - uma bela mistura de conivência e cumplicidade, confundida com uma sutil onda de hostilidade - dá contorno à figura masculina imaginária, conquistador, amante e companheiro, com todas as contradições que lhe cabem. Em torno do recente abandono e da solidão inevitável, ambas tecem aspectos singulares de suas vidas, escolhas cujo destino trazem de volta questões antigas, jamais ultrapassadas. Se casar e ter filhos não aproxima a mulher do destino invejado, o lugar reservado para a amante não é menos trágico. É no "destrinchamento" do texto que a direção do espetáculo nos permite pensar os fragmentos, rir de chistes arrojados e refletir sobre o sentido da vida, enquanto nos proporciona planejados intervalos.
Não há muito o que dizer e os segredos do passado não parecem tão relevantes como deveriam ser de fato. O que era imprescindível tornou-se vulgar e o esquecimento transformou-se em necessidade. Duas mulheres envelhecem, na vida e no palco. Enquanto o personagem masculino se diverte do outro lado do mapa, com a jovialidade americana e os velhos clichês embutidos nas mesmas piadas.
Com tudo o que assisti de belo nessa noite, uma pergunta ainda me cabe: qual é o sentido de montar textos que falam de um outro mundo, embora a mulher seja a mesma em qualquer parte? Talvez um diálogo entre Clarice Lispector e Adélia Prado, falando da solidão como o destino de todas as mulheres, possa nos ensinar algo mais sobre a faca e o queijo: a fome como saída para a coisa amarga.
sábado, 16 de janeiro de 2010
MARIGHELLA, o filme.

Ontem fui assistir ao filme "Marighella, o retrato falado do guerrilheiro", promovido pelo Grupo Tortura Nunca Mais - RJ, com a presença do diretor Sylvio Tendler, o filho de Marighella e outros militantes da época. A exibição aconteceu na Caixa Cultural da Almirante Barroso, fazendo parte de uma sequência de eventos que incluiam a exposição MARIGHELLA e homenagens ao "Combatentes tombados durante a ditadura iniciada com o golpe militar de 1964".
Bem antes de começar a exibição, a distribuição das senhas seguia critérios pouco convencionais, pra não dizer constrangedores. Enquanto a fila crescia o produtor do evento rodava pelo saguão distribuindo-as para os seus amigos. Minha sorte foi receber de quebra o cumprimento de um militante das antigas e nesta hora abocanhar o famigerado papelzinho cor de rosa, pegando carona com o desconhecido galante que pelo salão circulava. Uma menina que estava do meu lado e não teve a mesma iniciativa, ficou do lado de fora da festa por não saber responder rápido: você vai participar do debate?
A chuva que caía do lado de fora não impedia que aos poucos fosse se formando um aglomerado de pessoas em torno da sala de exibição, enquanto o produtor tentava ser "justo" com o resto das senhas que ainda retinha em suas mãos. Alguém decide sair e dar lugar a uma idosa, outros comentam acerca da falta de organização, até que finalmente a exibição tem início, com uma hora de atraso e um resto de burburinho e excitação no ar.
A narrativa segue no estilo tendleriano, cuja sensibilidade se expressa na escuta atenta e cuidadosa de diferentes relatos. Mariguella, o personagem que interessa ao olhar do cineasta, recebe um colorido especial dos amigos e parentes, tendo sua intimidade explorada em pequenos detalhes - a peruca, o óculos, as sandálias - que o tornam parte da história de mais um brasileiro baiano, homem simples, irreverente, de extrema sensibilidade e coragem.
Após o filme, um debate seguido de homenagens tem como foco principal o status de ser parente ou amigo de um torturado. Uma criança pede a palavra e surpreende com a novidade que todos já sabem: de que a tortura ainda existe, sendo praticada hoje contra os pobres e favelados. A classe média - que um dia foi esquerda - assume hoje uma posição de direita e sua luta por reparo não inclui o povo massacrado. Enquanto existirem privilégios, senhas e lugares marcados, a discussão que interessa ao povo permanecerá esquecida e faltarão lugares.
Ao sair do cinema tentei ir ao banheiro e fui informada pelo segurança que o prédio estava sendo evacuado. No dia seguinte fiquei sabendo de uma ameaça de bomba no local e pensei: quase que eu morro sem nem saber de que lado estava. Como filha de militar que odiava os comunistas e me ensinava sempre a ter cuidado com os "vermelhos", eu pensava: esse encontro não é pra mim, não serei homenageada. Ainda me restam outros filmes e outros encontros pra me sentir incluida nesta luta, mesmo sem o "pedigree" necessário.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A reinvenção de Caim

A guerra secular entre criador e criatura é o tema retomado por Saramago, com a poesia de um herege que não se intimida com a verdade. A sobrevivência do humano frente à lógica do divino é descontruída pelo personagem Caim, ora Abel, ora inocente, ora culpado. É na desorientação definitiva dos desígnios absolutos do divino que a história cria asas.
Se existe uma palavra solene e pomposa, aparentemente destinada a grandes coisas, quem decide o momento de sua solenidade é o poeta personagem. A palavra, cuja conotação erótica produz a intimidade com a mulher amada, é a mesma que lhe oferece um sinal na testa, uma marca. E que lhe faz seguir errante, sem saber ao certo o final da estrada.
A atemporalidade, como truque do autor, nos faz passear pela história sagrada com uma irreverência inescrupulosa. Recolocando na boca de Caim a escrupulosidade da criatura por Deus condenada. A armadilha que nos priva de outros sentidos é retirada das antigas lendas, cujas frestas o autor escava. É Caim quem salva Isaque da insanidade de Abraão, questiona Deus acerca da destruição de uma cidade, se espanta com a passividade de Jó e por fim, entra na arca e viaja com Noé e sua prole.
O assassinato do irmão e a vida errante, como dono de uma inconfundível e enigmática marca, transformam Caim em um homem inconformado, um outro personagem. Se tudo cabe em um romance, "é curioso", nos diz ele na boca do narrador desconhecido "que as pessoas falem tão ligeiramente do futuro, como se estivesse em seu poder afastá-lo ou aproximá-lo de acordo com as conveniências e necessidades..." No romance de Saramago, é o texto sagrado que sofre mutações imprevisíveis, alterando os planos do Criador e subvertendo a verdade. A criatura reage.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Um casal tijucano

Hoje me dei de presente o Caim do Saramago, enquanto aguardava o horário para assistir ao filme Praça Saens Peña, encerrando minhas noites de festividades de fim de ano. Sentei-me ao lado de um jovem casal, que trocava impressões acerca da nova empregada enquanto comia pipoca compulsivamente. Sem saber se o que mais me irritava era o barulho da pipoca ou o tom da conversa, tentei mudar de lugar, para descobrir em seguida que cadeiras numeradas era mais um dilema a ser enfrentado. Os donos das cadeiras com seus bilhetes numerados exigiam o lugar marcado.
De volta ao lugar de antes, aguardei silenciosa os trailers e comentários, torcendo para que o balde de pipoca acabasse logo e a última gota de coca-cola encerrasse com mais um típico barulho insuportável. Para minha sorte Chico Diaz em poucos minutos tomou conta da tela, roubando minha atenção com uma hora e meia de um espetáculo impecável. Não só ele, mas todo o elenco e direção me fizeram esquecer a obrigatoriedade de um lugar marcado.
Meu arraigado preconceito tijucano aos poucos deu lugar à um trabalho de convencimento raro, pela preparação de um roteiro limpo, honesto e dedicado. Ser tijucano deixou de ser um defeito grave, mesmo na construção de um personagem corno e aparentemente acovardado. Cujo contraste com o futuro morador da Zona Sul, com belos ares de antenado, não deixa dúvidas para que lado a câmera pretende empreender o seu melhor talhe.
Sem deixar de lado a pesquisa histórica do roteiro e sua conexão com os conflitos atuais, o ponto alto que o filme promove é a entrevista com Aldir Blanc, cujos contornos merecem ser relembrados. O que existe de incomum no bairro, nos revela o célebre compositor tijucano, entre outros citados, é a relação da classe média com o resto da população pobre, cuja convivência é reforçada pelo samba e pelas relações de troca permanente com as tradicionais escolas.
O casal ao meu lado tece seu comentário a la Boris Casoy, assegurando ao término da película que ela não terá mais do que dez cópias. Meu preconceito mudou de bairro, é na Zona Sul que o morador nao pode descer de madrugada pra comer cachorro quente e conversar com favelado. É na Zona Sul que a empregada doméstica se reduz a um bom ou mau negócio. É na Zona Sul que as pessoas perdem a sensibilidade e vão ao cinema somente pra não perder o hábito.
O próximo filme que o casal vai assistir é francês. Durante o trailer ele promete que fará isso por ela, recebendo de volta um beijo de muito obrigado. Espero que da próxima vez eu dê mais sorte e sente do lado de um casal tijucano menos descolado. Enquanto isso, vou dormir com Saramago.
Eliane Martins
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Encontros compossíveis

Uma das metas pra 2010 é ler bastante e voltar a escrever no meu blog. Comecei com Badiou e seu Manifesto pela filosofia, pra ficar em dia com o compromisso.
Ainda contaminada pelas reflexões propostas pelo autor, interrompo a leitura e vou ao cinema. Para além de pura distração, vou em busca do sujeito Lula, filho do Brasil, e encontro uma já esperada versão cinematográfica suspeita e imprecisa.
A reprodução da voz, o dedo que falta, as falas e trocadilhos e outros detalhes previstos, apontam para uma visão unitária e uma estetização do querer que dá ao sujeito um destino finito. Entre o político e o amoroso, a caricatura persiste e a figura humana se perde no reducionismo, no esquecimento, no traço perdido.
Numa foto de 1989 abraço o atual presidente e em tom de brincadeira lhe digo: essa é para os meus netos, enquanto ele se oferece sem saber aonde ia dar isso. A fidelidade ao evento-encontro fala de uma verdade subtraída do saber, de um tempo ainda não vivido.
Saí do cinema e terminei de ler Badiou, que encerra seu manifesto com um gesto platônico: a retoma o Um para sobre ele fundamentar a inconsistência como imprescindível. Fazendo de todas as tentativas de compreensão procedimentos genéricos, que unem o sujeito a alguma verdade não dita. Enquanto os créditos são exibidos Lula discursa, dedicando à sua mãe o diploma de presidente.
A história ainda não foi escrita. O gesto da multiplicidade está em não dar por encerrado o destino. Ainda não sei o que vou dizer aos meus netos, nem sei se os terei um dia. O retrato com Lula e meu encontro com ele são, no entanto, no dizer de Badiou, compossíveis.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
BARCELONA É FEMININA
Fui ver o último filme do Woody Allen e saí do cinema resmungando sozinha. Com tanta coisa interessante acontecendo no mundo, o cineasta velho e caduco continua falando de amor, sexo e orgia. Exibe cinicamente seus pretensiosos clichês antigos, acompanhado de imagens cada vez mais irresistíveis. Desvelando a gasta e rota tragédia da vida com sabor de coisa já vista.
O mal estar começou na entrada do cinema e a constatação do fiel público das tardes de sábado, que envelhecia. Ao meu lado, na última fila, um senhor de meia idade lia concentrado o livro que acabara de comprar, enquanto vez por outra alguém entrava na sala e manifestava uma suspeita euforia, provavelmente ao reencontrar um amigo aposentado que há anos não via. Esposas com sacos de pipoca ou uma amiga de companhia, entravam antes das luzes se apagarem e diminuir o burburinho.
O leitor distraído agora dava atenção à mulher e comentava do livro que tanto queria. As luzes se apagaram e o movimento na tela começa a reivindicar um tipo de concentração intelectual de respiração contida. Nada que aquele público desconhecesse ou já não tivesse imaginado cabível naquele retângulo imprevisto. A familiaridade dos movimentos se reafirma na narrativa, lugar de onde o autor se confunde com a obra, agora de forma invisível. A reação escandalosa do público quase sempre me irrita, não há motivos pra tanto riso.
Duas amigas americanas viajam de férias a Barcelona e tudo acontece em função desta viajem, como a sinopse avisa. Dentro do carro, enquanto viajam distraídas, o diretor vai delineando seus perfis caricatos na terceira pessoa, nos confidenciando as eternas inquietações de um homem excêntrico e exibido. Realçando sua presença incomoda e insistente, num sussurro de voz estridente que avisa todo o tempo quem dirige a película. Seu modo particular de narrar os personagens é como um velho conhecido. Como é conhecida a criteriosa escolha de belas mulheres, unida à uma eterna disposição em discorrer sobre o insolúvel conflito de relações, como drama central da vida. Não importando o lado da narrativa, apenas confirmando a inutilidade de qualquer tentativa.
A arte, com suas cores e energia, corrompe o olhar em direção à cidade escolhida, com destaque para a vida cultural emergente e suas recentes produções artísticas. É verão e Barcelona explode com sua arquitetura exuberante e seus costumes vivos, sendo vista primeiro de cima, da mansão do velho e pálido casal americano que hospeda as duas amigas. Em meio ao jardim florido o previsível casal mantém os traços da terra estrangeira à mesa, servida com todo o requinte. Enquanto comem, bebem e se confidenciam, discutem e interrogam sem nenhum pudor acerca do que é útil e indispensável à vida. E sobre os modos práticos de colocar estas verdades em dia.
Mais tarde, no grande salão de festas de uma exposição, o terceiro personagem da cena desfila pelas quinas, tendo como traço a camisa vermelha e o olhar sedutor, em eterna posição de conquista. As extravagâncias amorosas do galã - um convite inesperado para uma viagem decisiva - constroem um roteiro pouco convincente de triangulação, recheado de velhas e esvaziadas trapaças, grotescamente reproduzidas. Bem ao estilo do diretor, as cenas de sexo são propositalmente mal focadas e quase sempre partidas ao meio, ou interrompidas.
A sensualidade irresistível da mulher espanhola – antes uma citação, mais tarde uma aparição fantasmática de passionalidade incontida - ocupa metade das cenas seguintes, entre o inglês e a resistência da língua nativa. A mulher que retorna sempre em nome da paixão sem medida, interrompe brutalmente nas cenas decisivas, mudando pateticamente o sentido. Sem ser nunca compreendida, não importando nem mesmo a língua. Os excessos do autor desnudam o universo de contradições culturais embutidas por trás de costumes e estereótipos exagerados, com o quais ele se diverte sempre, na pele dos personagens. Especialmente os femininos.
O homem que estava do meu lado levantou-se empolgado enquanto a tela exibia os créditos finais. Woody Allen continua o mesmo, dizia ele em tom de euforia. Levei alguns dias para refletir sobre o que fui fazer ao cinema, além do hábito de pertencer a uma geração que aplaude o desencanto e ainda reconhece nele alguma poesia. Devem ser as ruas desconhecidas de Barcelona, misturada a uma boa dose de melancolia. Ou a mulher que ri sozinha dentro de mim, enquanto acende um cigarro e caminha pensativa. Pobre alma feminina, talvez Barcelona seja uma menina.
O mal estar começou na entrada do cinema e a constatação do fiel público das tardes de sábado, que envelhecia. Ao meu lado, na última fila, um senhor de meia idade lia concentrado o livro que acabara de comprar, enquanto vez por outra alguém entrava na sala e manifestava uma suspeita euforia, provavelmente ao reencontrar um amigo aposentado que há anos não via. Esposas com sacos de pipoca ou uma amiga de companhia, entravam antes das luzes se apagarem e diminuir o burburinho.
O leitor distraído agora dava atenção à mulher e comentava do livro que tanto queria. As luzes se apagaram e o movimento na tela começa a reivindicar um tipo de concentração intelectual de respiração contida. Nada que aquele público desconhecesse ou já não tivesse imaginado cabível naquele retângulo imprevisto. A familiaridade dos movimentos se reafirma na narrativa, lugar de onde o autor se confunde com a obra, agora de forma invisível. A reação escandalosa do público quase sempre me irrita, não há motivos pra tanto riso.
Duas amigas americanas viajam de férias a Barcelona e tudo acontece em função desta viajem, como a sinopse avisa. Dentro do carro, enquanto viajam distraídas, o diretor vai delineando seus perfis caricatos na terceira pessoa, nos confidenciando as eternas inquietações de um homem excêntrico e exibido. Realçando sua presença incomoda e insistente, num sussurro de voz estridente que avisa todo o tempo quem dirige a película. Seu modo particular de narrar os personagens é como um velho conhecido. Como é conhecida a criteriosa escolha de belas mulheres, unida à uma eterna disposição em discorrer sobre o insolúvel conflito de relações, como drama central da vida. Não importando o lado da narrativa, apenas confirmando a inutilidade de qualquer tentativa.
A arte, com suas cores e energia, corrompe o olhar em direção à cidade escolhida, com destaque para a vida cultural emergente e suas recentes produções artísticas. É verão e Barcelona explode com sua arquitetura exuberante e seus costumes vivos, sendo vista primeiro de cima, da mansão do velho e pálido casal americano que hospeda as duas amigas. Em meio ao jardim florido o previsível casal mantém os traços da terra estrangeira à mesa, servida com todo o requinte. Enquanto comem, bebem e se confidenciam, discutem e interrogam sem nenhum pudor acerca do que é útil e indispensável à vida. E sobre os modos práticos de colocar estas verdades em dia.
Mais tarde, no grande salão de festas de uma exposição, o terceiro personagem da cena desfila pelas quinas, tendo como traço a camisa vermelha e o olhar sedutor, em eterna posição de conquista. As extravagâncias amorosas do galã - um convite inesperado para uma viagem decisiva - constroem um roteiro pouco convincente de triangulação, recheado de velhas e esvaziadas trapaças, grotescamente reproduzidas. Bem ao estilo do diretor, as cenas de sexo são propositalmente mal focadas e quase sempre partidas ao meio, ou interrompidas.
A sensualidade irresistível da mulher espanhola – antes uma citação, mais tarde uma aparição fantasmática de passionalidade incontida - ocupa metade das cenas seguintes, entre o inglês e a resistência da língua nativa. A mulher que retorna sempre em nome da paixão sem medida, interrompe brutalmente nas cenas decisivas, mudando pateticamente o sentido. Sem ser nunca compreendida, não importando nem mesmo a língua. Os excessos do autor desnudam o universo de contradições culturais embutidas por trás de costumes e estereótipos exagerados, com o quais ele se diverte sempre, na pele dos personagens. Especialmente os femininos.
O homem que estava do meu lado levantou-se empolgado enquanto a tela exibia os créditos finais. Woody Allen continua o mesmo, dizia ele em tom de euforia. Levei alguns dias para refletir sobre o que fui fazer ao cinema, além do hábito de pertencer a uma geração que aplaude o desencanto e ainda reconhece nele alguma poesia. Devem ser as ruas desconhecidas de Barcelona, misturada a uma boa dose de melancolia. Ou a mulher que ri sozinha dentro de mim, enquanto acende um cigarro e caminha pensativa. Pobre alma feminina, talvez Barcelona seja uma menina.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
A Lapa e a polícia
Por dois dias seguidos visitei a Lapa e em ambos fiquei estarrecida com o que vi ao anoitecer de cada um dos dias. Sabemos que a ação diária da polícia na região é intensa, e sofre mudanças com objetivos específicos. Acabamos nos acostumando com os camburões e as sirenes estacionadas em lugares estratégicos, fazendo parte da habitual paisagem, com sua suposta harmonia e convívio.
Este fim de semana, no entanto, foi diferente. Algumas ações dirigidas apontavam para novas medidas de segurança na região, com as quais passamos a conviver sem aviso. No sábado, conversando distraída com amigos na porta do Circo Voador, estranhei barracas sendo arrastadas por senhoras, velhos e trabalhadores aborrecidos, que se dirigiam amontoadas para um canto debaixo dos arcos.
Sob a escolta de um policial, eles se viam constrangidos a abandonar a rotina de vender livremente suas mercadorias, passando a ser tratados como fora da lei. Estavam fazendo algo proibido. Talvez essa noite alguém não consiga levar pra casa o pão, o leite, ou qualquer outra coisa que o dinheiro compre com trabalho in-digno. Mesmo assim, enquanto todos não foram retirados de em volta da praça, o policial não deu por encerrado o seu serviço. É a lei, pensei, suspirando fundo na minha impotência que se deu por vencida. Não há nada a fazer.
No domingo a cena não apenas se repetia, mudava de lugar e de vítima. Parei numa barraca pra comer um churrasquinho e tomar uma cerveja com um amigo. Enquanto aguardava na fila, nos sentamos numa cadeira de frente pra rua e começamos a observar o que acontecia. A rua estava repleta de mendigos, misturada com moradores locais e gente de fora, que às dez horas da noite ainda circulava nos bares e barraquinhas. De vez em quando era possível encontrar alguém conhecido ou ser abordado por um faminto.
De costas para os arcos, ouvimos o burburinho vindo de trás, que foi se estendendo na nossa direção e seguia, parecendo infinito. Aos poucos nos demos conta de uma nova e inesperada ação da polícia, que expulsava um grupo grande de pessoas de seus alojamentos de improviso. Fiquei assustada ao ver tantas crianças descalças correndo àquela hora da noite, mães adolescentes com bebês no colo, gritos que cresciam enquanto a confusão se estendia. Era a lei, mais uma vez se cumprindo.
A lei que provavelmente quer manter limpa a cidade para o dia seguinte. E à qual nos submetemos, ajudando a esconder pra debaixo do tapete a enorme ferida social, alastrada e sangrenta. Insuportavelmente exposta à nossa vista. A poucos metros um policial chutava um mendigo, enquanto lhe arrancava o cobertor e lhe mandava pra lugar nenhum. Somente cumpria a lei, com seus modos decididos.
A ferida que cresce purulenta em algum beco da cidade, por vezes estoura a olhos nus, rompendo com a ordem estabelecida. Não é preciso ser vítima de uma bala perdida pra ser atravessado no corpo e no cérebro pela existência desse estranho cotidiano, que mata pobres, pretos, velhos, crianças e meretrizes. Mantendo a céu aberto, campos de concentração e práticas genocidas.
Este fim de semana, no entanto, foi diferente. Algumas ações dirigidas apontavam para novas medidas de segurança na região, com as quais passamos a conviver sem aviso. No sábado, conversando distraída com amigos na porta do Circo Voador, estranhei barracas sendo arrastadas por senhoras, velhos e trabalhadores aborrecidos, que se dirigiam amontoadas para um canto debaixo dos arcos.
Sob a escolta de um policial, eles se viam constrangidos a abandonar a rotina de vender livremente suas mercadorias, passando a ser tratados como fora da lei. Estavam fazendo algo proibido. Talvez essa noite alguém não consiga levar pra casa o pão, o leite, ou qualquer outra coisa que o dinheiro compre com trabalho in-digno. Mesmo assim, enquanto todos não foram retirados de em volta da praça, o policial não deu por encerrado o seu serviço. É a lei, pensei, suspirando fundo na minha impotência que se deu por vencida. Não há nada a fazer.
No domingo a cena não apenas se repetia, mudava de lugar e de vítima. Parei numa barraca pra comer um churrasquinho e tomar uma cerveja com um amigo. Enquanto aguardava na fila, nos sentamos numa cadeira de frente pra rua e começamos a observar o que acontecia. A rua estava repleta de mendigos, misturada com moradores locais e gente de fora, que às dez horas da noite ainda circulava nos bares e barraquinhas. De vez em quando era possível encontrar alguém conhecido ou ser abordado por um faminto.
De costas para os arcos, ouvimos o burburinho vindo de trás, que foi se estendendo na nossa direção e seguia, parecendo infinito. Aos poucos nos demos conta de uma nova e inesperada ação da polícia, que expulsava um grupo grande de pessoas de seus alojamentos de improviso. Fiquei assustada ao ver tantas crianças descalças correndo àquela hora da noite, mães adolescentes com bebês no colo, gritos que cresciam enquanto a confusão se estendia. Era a lei, mais uma vez se cumprindo.
A lei que provavelmente quer manter limpa a cidade para o dia seguinte. E à qual nos submetemos, ajudando a esconder pra debaixo do tapete a enorme ferida social, alastrada e sangrenta. Insuportavelmente exposta à nossa vista. A poucos metros um policial chutava um mendigo, enquanto lhe arrancava o cobertor e lhe mandava pra lugar nenhum. Somente cumpria a lei, com seus modos decididos.
A ferida que cresce purulenta em algum beco da cidade, por vezes estoura a olhos nus, rompendo com a ordem estabelecida. Não é preciso ser vítima de uma bala perdida pra ser atravessado no corpo e no cérebro pela existência desse estranho cotidiano, que mata pobres, pretos, velhos, crianças e meretrizes. Mantendo a céu aberto, campos de concentração e práticas genocidas.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
MEU CASO DE AMOR COM O TEATRO
Ontem fui ao teatro depois de muito tempo “entocada”. Na cidade do Rio de Janeiro ir ao teatro é uma aventura sempre perigosa. Mesmo assim não desisto e guardo meu grau de exigência pra alguma surpresa inesperada. Em alguns raros momentos o teatro carioca me surpreendeu de fato.
Isso aconteceu em datas memoráveis. Mesmo que eu inveje os paulistas com o seu SESC da Consolação, mesmo que eu fareje o teatro de Londrina com boas e surpreendentes aparições, mesmo que eu me surpreenda com o que acontece em Brasília, Goiás e outros lugares inimagináveis, o teatro do Rio de Janeiro continua sendo a velha praga.
Não tenho formação teatral, aprendi no tato. Fui batizada e me tornei amante um belo dia, com o Grupo Galpão e sua mais bela apresentação de todos os tempos: Romeu e Julieta. Depois acompanhei Gabriel Vilela em inúmeras montagens. Era um tempo de festa, pelo menos de seis em seis meses um espetáculo que emocionava. Grandes e talentosos atores sendo descobertos, outros conseguindo espaço digno para a sua arte.
Gabriel saiu de cena e depois dele ficou um vácuo. O grupo Armazém apareceu e começou a abrir novos espaços. Fundição Progresso abrigou várias montagens, juntamente com o SESC de Copacabana, CCBB, Planetário. Carlos Gomes, João Caetano. O teatro estava de volta, mas ainda não era nosso, era de fora.
Conheci Moacyr Chaves em “Bugiaria – o processo de João Cointra” e fiquei encantada. De lá pra cá acompanhei alguns de seus espetáculos, na esperança de viver na minha cidade, um novo tempo de boas montagens. Desisti no caminho, Moacyr errou a mão em vários lugares, não vou citar, sou uma leiga apaixonada.
Ontem decidi dar-lhe uma outra chance e fui assistir “A invenção de Morel” de Bioy Casares. Para minha surpresa, os ingressos eram de sobra, o teatro estava vazio e isto me deixou preocupada. Deixei de assistir a Companhia Peter Brook, mas não havia de ser nada. Uma bela teoria da conspiração acerca do comentário de Bárbara Heliodora me deixaria calma, em condições de visitar a exposição da China e não pensar mais no caso.
O folder, muito bonito, como quase tudo que o CCBB realiza, era uma inspiração à parte. Entrei meia hora antes e consegui ler o texto de Vera Novello, que me adoçou a boca e me deu coragem. Trechos de entrevistas com Bioy Casares, bem como um pequeno resumo de sua trajetória em destaque, davam alguma noção do que nos esperava. O corpo de atores, pra quem freqüenta teatro, dispensa comentários. Fiquei novamente animada.
O esforço descomunal dos atores pra dar ao público a chance de assistir a um bom espetáculo, não passou da primeira página. Mesmo esbanjando talento em cena, havia uma postura excessivamente exasperada. Em determinados momentos eu não sabia se assistia a vários monólogos ou se me contentava com um texto despedaçado. O exagero na maquiagem e nos figurinos diante de tantos apelos cênicos, tornava tudo performático. Pra completar um cenário azul espelhado, com grades dos lados, pareciam querer dizer alguma coisa, mas o texto não era tão óbvio.
Os atores voltam em cena para receber os aplausos. No rosto de cada um você percebe o cansaço e a tristeza com a falta de público, com a falta de entusiasmo. Voltei pra casa abatida e fui ouvir Ronda na voz de Jamelão. Tentarei numa outra data.
Isso aconteceu em datas memoráveis. Mesmo que eu inveje os paulistas com o seu SESC da Consolação, mesmo que eu fareje o teatro de Londrina com boas e surpreendentes aparições, mesmo que eu me surpreenda com o que acontece em Brasília, Goiás e outros lugares inimagináveis, o teatro do Rio de Janeiro continua sendo a velha praga.
Não tenho formação teatral, aprendi no tato. Fui batizada e me tornei amante um belo dia, com o Grupo Galpão e sua mais bela apresentação de todos os tempos: Romeu e Julieta. Depois acompanhei Gabriel Vilela em inúmeras montagens. Era um tempo de festa, pelo menos de seis em seis meses um espetáculo que emocionava. Grandes e talentosos atores sendo descobertos, outros conseguindo espaço digno para a sua arte.
Gabriel saiu de cena e depois dele ficou um vácuo. O grupo Armazém apareceu e começou a abrir novos espaços. Fundição Progresso abrigou várias montagens, juntamente com o SESC de Copacabana, CCBB, Planetário. Carlos Gomes, João Caetano. O teatro estava de volta, mas ainda não era nosso, era de fora.
Conheci Moacyr Chaves em “Bugiaria – o processo de João Cointra” e fiquei encantada. De lá pra cá acompanhei alguns de seus espetáculos, na esperança de viver na minha cidade, um novo tempo de boas montagens. Desisti no caminho, Moacyr errou a mão em vários lugares, não vou citar, sou uma leiga apaixonada.
Ontem decidi dar-lhe uma outra chance e fui assistir “A invenção de Morel” de Bioy Casares. Para minha surpresa, os ingressos eram de sobra, o teatro estava vazio e isto me deixou preocupada. Deixei de assistir a Companhia Peter Brook, mas não havia de ser nada. Uma bela teoria da conspiração acerca do comentário de Bárbara Heliodora me deixaria calma, em condições de visitar a exposição da China e não pensar mais no caso.
O folder, muito bonito, como quase tudo que o CCBB realiza, era uma inspiração à parte. Entrei meia hora antes e consegui ler o texto de Vera Novello, que me adoçou a boca e me deu coragem. Trechos de entrevistas com Bioy Casares, bem como um pequeno resumo de sua trajetória em destaque, davam alguma noção do que nos esperava. O corpo de atores, pra quem freqüenta teatro, dispensa comentários. Fiquei novamente animada.
O esforço descomunal dos atores pra dar ao público a chance de assistir a um bom espetáculo, não passou da primeira página. Mesmo esbanjando talento em cena, havia uma postura excessivamente exasperada. Em determinados momentos eu não sabia se assistia a vários monólogos ou se me contentava com um texto despedaçado. O exagero na maquiagem e nos figurinos diante de tantos apelos cênicos, tornava tudo performático. Pra completar um cenário azul espelhado, com grades dos lados, pareciam querer dizer alguma coisa, mas o texto não era tão óbvio.
Os atores voltam em cena para receber os aplausos. No rosto de cada um você percebe o cansaço e a tristeza com a falta de público, com a falta de entusiasmo. Voltei pra casa abatida e fui ouvir Ronda na voz de Jamelão. Tentarei numa outra data.
domingo, 15 de junho de 2008
ADEUS A JAMELÃO
Os discos eram de vinil, em várias rotações, pesavam, quebravam e papai ficava zangado com qualquer arranhão. Eu passava as tardes de banho tomado na sala da antiga casa, ouvindo e aprendendo velhas e populares canções: do brega ao chique, cantava de cor qualquer modinha, especialmente o refrão. Da morte de Pixinguinha, da tristeza de papai e dos discos conservados em homenagem àquele que compôs a mais ouvida das melodias do seu tempo, guardo as notas antigas misturadas às tardes raras, iluminadas pela poesia que escorria dos porões.
As músicas vinham do morro e isto a gente aprendia de travessão. O morro, lugar de vagabundo, de malandro negro safado, era assim que se dizia naquele tempo em que as palavras eram curtas e o medo tomava conta das mentes empobrecidas de informação. Enquanto a poesia brotava e obrigava as casas a abrirem suas portas e janelas praquela euforia de vozes e instrumentos, eu ia gravando os rostos, os nomes... e entre um deles estava Jamelão. Nome da arvore da infância, que a gente subia pra ver a paisagem do alto e contemplar a sujeira do chão. Ou balançar no balanço pendurado em um de seus galhos fortes. Ou simplesmente desfrutar de sua sombra e apreciar seu fruto estranho, cuja arrebentação se misturava ao colorido da terra, numa estranha e permanente visão.
Jamelão, um negro do morro, morre aos 95 anos e eu fui dar o último adeus à minha memória, escondida em tantas vozes e cores de antigamente. Pela primeira vez visitei uma favela, comi sardinha frita trazida do alto, cerveja Skol de garrafa a 2,50, música pra todos os gostos, gente passeando na rua, criança fazendo aniversário, bolo no meio da praça, barulho de tiro. Não liga não, e normal, aqui você se acostuma. Fica tranqüila, dizia o meu anfitrião.
A quadra da Mangueira estava repleta de carros do lado de fora, na porta os caminhões e muitos jornalistas de plantão. Gente dando entrevista, a viúva recepcionando os convidados, o neto elegantemente vestido ao lado do caixão. Orgulho de avô, pensei, fica guardado como uma fotografia de recordação. Um velho que de terno azul marinho e blusa rosa por baixo, chapéu de palha com fita rosa, chegou acompanhado da esposa e da filha, olhou o amigo no caixão de depois se sentou em um canto da quadra.
A viúva, com seu mesmo turbante rosa, sua blusa rosa choque e sua calça verde arregalado, recebia os convidados e dava entrevista pra televisão. Seu rosto de traços fortes misturado à uma elegância natural, davam-lhe uma beleza calculada e preenchida com uma vida diferente das demais. As mulheres naquele lugar são iguais às outras, mas bebem muito mais cerveja e andam pelas ruas sozinhas, participam das rodas de discussão. Essa era a fantasia que permeava o meu olhar curioso, cheio de elucubrações.
Meu amigo me perguntava se estava tudo bem e eu achando desnecessária a pergunta, respondia sempre com uma afirmação. Não foi diferente a vida que eu vivi na minha infância, em casas que eram construídas em frente a enormes valões. Não me assusto com as diferenças, com os becos escuros, com modos e aparências distintas. Ser esquisito pode ser o começo da revolução, pensava enquanto lutava contra as esquisitices que me ensinaram durante a vida e que não combinam com a realidade por alguma outra razão.
A razão que explica a desigualdade, o preconceito e a desinformação foi vivida em forma de deboche por Jamelão. Com seu elastiquinho pendurado na mão, reclamando de cachê pra pagar a conta da luz, viveu sua fama de pão duro que tem ojeriza à escravidão. Lamentou repetidas vezes não ser reconhecido e bem pago, como um dos maiores intérpretes da sua época. Sua morte é anunciada hoje em todos os jornais do mundo, enquanto a favela continua fabricando frutas doces, de cor preta e sabor ácido. Eles nascem, crescem e morrem tingindo as calçadas do mundo com suas cores berrantes, suas vozes, suas canções. Nos ensinando que a diferença produz poesia e aproximação, enquanto a desigualdade continua manchando indiscriminadamente o nosso chão.
As músicas vinham do morro e isto a gente aprendia de travessão. O morro, lugar de vagabundo, de malandro negro safado, era assim que se dizia naquele tempo em que as palavras eram curtas e o medo tomava conta das mentes empobrecidas de informação. Enquanto a poesia brotava e obrigava as casas a abrirem suas portas e janelas praquela euforia de vozes e instrumentos, eu ia gravando os rostos, os nomes... e entre um deles estava Jamelão. Nome da arvore da infância, que a gente subia pra ver a paisagem do alto e contemplar a sujeira do chão. Ou balançar no balanço pendurado em um de seus galhos fortes. Ou simplesmente desfrutar de sua sombra e apreciar seu fruto estranho, cuja arrebentação se misturava ao colorido da terra, numa estranha e permanente visão.
Jamelão, um negro do morro, morre aos 95 anos e eu fui dar o último adeus à minha memória, escondida em tantas vozes e cores de antigamente. Pela primeira vez visitei uma favela, comi sardinha frita trazida do alto, cerveja Skol de garrafa a 2,50, música pra todos os gostos, gente passeando na rua, criança fazendo aniversário, bolo no meio da praça, barulho de tiro. Não liga não, e normal, aqui você se acostuma. Fica tranqüila, dizia o meu anfitrião.
A quadra da Mangueira estava repleta de carros do lado de fora, na porta os caminhões e muitos jornalistas de plantão. Gente dando entrevista, a viúva recepcionando os convidados, o neto elegantemente vestido ao lado do caixão. Orgulho de avô, pensei, fica guardado como uma fotografia de recordação. Um velho que de terno azul marinho e blusa rosa por baixo, chapéu de palha com fita rosa, chegou acompanhado da esposa e da filha, olhou o amigo no caixão de depois se sentou em um canto da quadra.
A viúva, com seu mesmo turbante rosa, sua blusa rosa choque e sua calça verde arregalado, recebia os convidados e dava entrevista pra televisão. Seu rosto de traços fortes misturado à uma elegância natural, davam-lhe uma beleza calculada e preenchida com uma vida diferente das demais. As mulheres naquele lugar são iguais às outras, mas bebem muito mais cerveja e andam pelas ruas sozinhas, participam das rodas de discussão. Essa era a fantasia que permeava o meu olhar curioso, cheio de elucubrações.
Meu amigo me perguntava se estava tudo bem e eu achando desnecessária a pergunta, respondia sempre com uma afirmação. Não foi diferente a vida que eu vivi na minha infância, em casas que eram construídas em frente a enormes valões. Não me assusto com as diferenças, com os becos escuros, com modos e aparências distintas. Ser esquisito pode ser o começo da revolução, pensava enquanto lutava contra as esquisitices que me ensinaram durante a vida e que não combinam com a realidade por alguma outra razão.
A razão que explica a desigualdade, o preconceito e a desinformação foi vivida em forma de deboche por Jamelão. Com seu elastiquinho pendurado na mão, reclamando de cachê pra pagar a conta da luz, viveu sua fama de pão duro que tem ojeriza à escravidão. Lamentou repetidas vezes não ser reconhecido e bem pago, como um dos maiores intérpretes da sua época. Sua morte é anunciada hoje em todos os jornais do mundo, enquanto a favela continua fabricando frutas doces, de cor preta e sabor ácido. Eles nascem, crescem e morrem tingindo as calçadas do mundo com suas cores berrantes, suas vozes, suas canções. Nos ensinando que a diferença produz poesia e aproximação, enquanto a desigualdade continua manchando indiscriminadamente o nosso chão.
domingo, 18 de maio de 2008
Urbanidade
Ontem saí de casa atrasada para um compromisso de trabalho e quando cheguei no ponto do ônibus me dei conta, bastante aflita, de que não tinha o dinheiro trocado para a passagem, apenas cinqüenta reais inteiros. Sempre tenho o cuidado de andar com pratinhas, facilitando o trabalho dos trocadores, especialmente quando eles são ao mesmo tempo motoristas. Não me custa ser gentil, antes de entrar no ônibus eu sempre dou bom dia, esse é um hábito que normalmente facilita as relações, nos humaniza.
Havia uma menina com um bebê no colo e eu sorri para ela assim que entrei, fazia um dia bonito. Retirei a nota de cinqüenta da carteira e disse: desculpe, mas eu não tenho trocado e não tive tempo de passar no jornaleiro, comprar um jornal, uma revista. A trocadora me disse que não tinha troco e eu insisti: e como resolveremos isso? Ela me respondeu secamente: fale com o motorista.O mal humor instalado naquele lugar não se demovia com meus gestos de gentileza e voz macia.
Me aproximei do motorista e disse, com o maior respeito que eu lhe devia: desculpe incomodar seu trabalho, mas é que estou com uma nota de cinqüenta reais e a trocadora não tem troco, será que eu poderia viajar aqui na frente, descerei algumas quadras adiante, na esquina da Bolivar. A essa altura eu vinha do começo de Copacabana e já estava quase na esquina da Siqueira Campos, umas quatro quadras percorridas. Imediatamente ele parou o ônibus e disse que eu deveria descer, que eu não poderia viajar na frente, era proibido.
Surpresa com a reação do motorista, tentei argumentar sobre os meus direitos e voltei para a trocadora, quase enfurecida: eu quero ver a lei que me proíbe de viajar por não ter dinheiro trocado. A trocadora com ar de deboche me dizia, com seu português macarrônico, enquanto eu a corrigia: a gente não podemos, não minha filha, nós não podemos! Estamos entendidas? Eu quero saber o que diz a lei, você sabe me dizer? É claro que ela não sabia, nem eu. E que os demais passageiros já começavam a ficar irritados com a minha insolência e me cobriam de vaias, enquanto eu desistia.
Desci do ônibus e anotei a placa, pensando: vou processar essa porcaria! Dias antes eu havia visto uma cena que me constrangera e me deixara pensativa: uma senhora esbarra em um rapaz e pede desculpas. O rapaz se volta pra ela e diz: sabia que eu posso te processar por isso? Era o vendedor de uma loja e ele estava fazendo uma piada ridícula. Não vou processar ninguém, vou simplesmente escrever um texto e colocar na minha página um desabafo aflito.
Não quero mais discutir os meus direitos, sei que poderia abrir um processo e colocar uma empresa na justiça. Para isso eu precisaria de testemunhas, de uma ocorrência policial, de uma ida à delegacia. Estou sempre atrasada, não tenho tempo para isso. E quanto mais corro, mais me assusto com esta sociedade urbana em que vivo, truculenta, desumana e tão cheia de vícios. Que me obrigam a pensar essas coisas enquanto ando à pé para o meu compromisso. Entre camelôs, moradores de rua e sirenes de polícia.
Havia uma menina com um bebê no colo e eu sorri para ela assim que entrei, fazia um dia bonito. Retirei a nota de cinqüenta da carteira e disse: desculpe, mas eu não tenho trocado e não tive tempo de passar no jornaleiro, comprar um jornal, uma revista. A trocadora me disse que não tinha troco e eu insisti: e como resolveremos isso? Ela me respondeu secamente: fale com o motorista.O mal humor instalado naquele lugar não se demovia com meus gestos de gentileza e voz macia.
Me aproximei do motorista e disse, com o maior respeito que eu lhe devia: desculpe incomodar seu trabalho, mas é que estou com uma nota de cinqüenta reais e a trocadora não tem troco, será que eu poderia viajar aqui na frente, descerei algumas quadras adiante, na esquina da Bolivar. A essa altura eu vinha do começo de Copacabana e já estava quase na esquina da Siqueira Campos, umas quatro quadras percorridas. Imediatamente ele parou o ônibus e disse que eu deveria descer, que eu não poderia viajar na frente, era proibido.
Surpresa com a reação do motorista, tentei argumentar sobre os meus direitos e voltei para a trocadora, quase enfurecida: eu quero ver a lei que me proíbe de viajar por não ter dinheiro trocado. A trocadora com ar de deboche me dizia, com seu português macarrônico, enquanto eu a corrigia: a gente não podemos, não minha filha, nós não podemos! Estamos entendidas? Eu quero saber o que diz a lei, você sabe me dizer? É claro que ela não sabia, nem eu. E que os demais passageiros já começavam a ficar irritados com a minha insolência e me cobriam de vaias, enquanto eu desistia.
Desci do ônibus e anotei a placa, pensando: vou processar essa porcaria! Dias antes eu havia visto uma cena que me constrangera e me deixara pensativa: uma senhora esbarra em um rapaz e pede desculpas. O rapaz se volta pra ela e diz: sabia que eu posso te processar por isso? Era o vendedor de uma loja e ele estava fazendo uma piada ridícula. Não vou processar ninguém, vou simplesmente escrever um texto e colocar na minha página um desabafo aflito.
Não quero mais discutir os meus direitos, sei que poderia abrir um processo e colocar uma empresa na justiça. Para isso eu precisaria de testemunhas, de uma ocorrência policial, de uma ida à delegacia. Estou sempre atrasada, não tenho tempo para isso. E quanto mais corro, mais me assusto com esta sociedade urbana em que vivo, truculenta, desumana e tão cheia de vícios. Que me obrigam a pensar essas coisas enquanto ando à pé para o meu compromisso. Entre camelôs, moradores de rua e sirenes de polícia.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Sobreviverei
Fui ao cinema assistir um filme alemão que haviam me recomendado e acabei entrando na porta errada. Para minha surpresa – eu não havia consultado o jornal, descobri na hora – a primeira produção hollywoodiana de Hersog acabara de entrar em cartaz: o sobrevivente. Não havia dúvidas de que valeria à pena mudar de rota.
Os primeiros cinco minutos do filme não parecem dizer nada, além de um inglês de causar estranheza a quem está acostumado com o cineasta e suas produções alemãs clássicas. Rostos moldados por Hollywood, no entanto, se perdem, quando com eles já se quer alguém acostumado. As tomadas de cena que seguem as primeiras falas, suportam um roteiro cuidadosamente recortado, tal como nos ensina a velha magia de quem sabe o que fazer com as imagens.
O tema seria banal e repetitivo, se não fossem os caminhos percorridos, que não deixam falsas pegadas. Um anti-herói ingênuo e íntegro, não se comunica por meio de ideologias consagradas. Seu sonho de ser aviador é simples, brutal, como a realidade que cerca as conseqüências de um ato que não se pretende arrojado. Perdido na selva vietnamita, preso e torturado, ele procura um sorriso, uma saída, uma fuga, uma cobra de alimento, qualquer coisa que lhe faça continuar vivo, até ser milagrosamente resgatado.
Sua chegada em solo seguro é recebida por uma multidão que o consagra como um herói, a velha piada. Ao ser indagado por repórteres acerca do segredo pra se sobreviver, sem saber o que dizer, declara: é preciso encher o que está vazio e esvaziar o que está cheio. Saí do cinema com essas palavras. Depois de tanto esforço pra suportar cenas duras e impactantes, carregadas de um realismo exacerbado, pensei: então esse era o recado! Apenas uma idéia na cabeça de um homem que desejou ficar vivo, com a intensidade de quem acredita no próprio ato.
Resolvi entender o recado e pensar nas coisas que esvaziaria antes que o ano acabasse, e o que encheria pra continuar viva, acreditando em alguma possibilidade. Esta é a função do cinema: nos fazer criar uma outra realidade. Talvez eu não fique nem mais leve nem mais pesada. Mas certamente sobreviverei, e por enquanto isso me basta.
Os primeiros cinco minutos do filme não parecem dizer nada, além de um inglês de causar estranheza a quem está acostumado com o cineasta e suas produções alemãs clássicas. Rostos moldados por Hollywood, no entanto, se perdem, quando com eles já se quer alguém acostumado. As tomadas de cena que seguem as primeiras falas, suportam um roteiro cuidadosamente recortado, tal como nos ensina a velha magia de quem sabe o que fazer com as imagens.
O tema seria banal e repetitivo, se não fossem os caminhos percorridos, que não deixam falsas pegadas. Um anti-herói ingênuo e íntegro, não se comunica por meio de ideologias consagradas. Seu sonho de ser aviador é simples, brutal, como a realidade que cerca as conseqüências de um ato que não se pretende arrojado. Perdido na selva vietnamita, preso e torturado, ele procura um sorriso, uma saída, uma fuga, uma cobra de alimento, qualquer coisa que lhe faça continuar vivo, até ser milagrosamente resgatado.
Sua chegada em solo seguro é recebida por uma multidão que o consagra como um herói, a velha piada. Ao ser indagado por repórteres acerca do segredo pra se sobreviver, sem saber o que dizer, declara: é preciso encher o que está vazio e esvaziar o que está cheio. Saí do cinema com essas palavras. Depois de tanto esforço pra suportar cenas duras e impactantes, carregadas de um realismo exacerbado, pensei: então esse era o recado! Apenas uma idéia na cabeça de um homem que desejou ficar vivo, com a intensidade de quem acredita no próprio ato.
Resolvi entender o recado e pensar nas coisas que esvaziaria antes que o ano acabasse, e o que encheria pra continuar viva, acreditando em alguma possibilidade. Esta é a função do cinema: nos fazer criar uma outra realidade. Talvez eu não fique nem mais leve nem mais pesada. Mas certamente sobreviverei, e por enquanto isso me basta.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
De quem é o caminho?
Vamos desenhar um caminho? me diz a criança no consultório. Um menino de sete anos de idade, vinha acompanhado da mãe e já na entrada do hospital me causou surpresa o modo como andava: sacudia os braços em círculos no ar, como se abrisse caminho no vento pra conseguir passagem. Já fazia algum tempo que ele vinha e a queixa era feita pela mãe: um menino muito agressivo.
Nas primeiras entrevistas, colocava tudo de cabeça pra baixo, chutava, batia. Aos poucos foi dando vida aos carrinhos que iam pra guerra, as mortes, os bandidos. Seu pai morrera com um choque no liquidificador, quando ele ainda estava na barriga da mãe e este era o drama que envolvia aquela família, composta de mãe e filho.
Sim, vamos, respondi depois de colocar duas folhas de papel, lápis e borracha sobre a mesa, sentando-me em seguida. Vi que ele desenhava distraído da minha presença, absorto, determinado, decidido. Enquanto eu apenas repetia, não entrando na brincadeira do jeito que me foi oferecida. Para comodidade minha, perguntei se poderia copiar o dele, que me parecia já bem definido. Afinal o que eu colocaria no meu caminho, como explicaria aquela brincadeira sem sentido? Imediatamente ele interrompeu o desenho, colocou o lápis sobre a mesa, me olhou e disse bem sério: é claro que não, você não sabe que cada um tem que ter o seu caminho?
Já faz muitos anos e este era o início da minha clínica. Mas nunca mais esqueci aquele menino. Quase sempre penso no pedido que via em seu rosto: que lhe deixassem respirar sozinho. Ao mesmo tempo admiro a sua coragem de se rebelar contra o meu conformismo. É claro que era só uma brincadeira, mas quem disse que ele queria saber disso?
Nas primeiras entrevistas, colocava tudo de cabeça pra baixo, chutava, batia. Aos poucos foi dando vida aos carrinhos que iam pra guerra, as mortes, os bandidos. Seu pai morrera com um choque no liquidificador, quando ele ainda estava na barriga da mãe e este era o drama que envolvia aquela família, composta de mãe e filho.
Sim, vamos, respondi depois de colocar duas folhas de papel, lápis e borracha sobre a mesa, sentando-me em seguida. Vi que ele desenhava distraído da minha presença, absorto, determinado, decidido. Enquanto eu apenas repetia, não entrando na brincadeira do jeito que me foi oferecida. Para comodidade minha, perguntei se poderia copiar o dele, que me parecia já bem definido. Afinal o que eu colocaria no meu caminho, como explicaria aquela brincadeira sem sentido? Imediatamente ele interrompeu o desenho, colocou o lápis sobre a mesa, me olhou e disse bem sério: é claro que não, você não sabe que cada um tem que ter o seu caminho?
Já faz muitos anos e este era o início da minha clínica. Mas nunca mais esqueci aquele menino. Quase sempre penso no pedido que via em seu rosto: que lhe deixassem respirar sozinho. Ao mesmo tempo admiro a sua coragem de se rebelar contra o meu conformismo. É claro que era só uma brincadeira, mas quem disse que ele queria saber disso?
domingo, 30 de setembro de 2007
UMA LIMPEZA NA CIDADE
Numa manhã de terça feira nas ruas de Ipanema, um procedimento de rotina desperta a curiosidade dos transeuntes, que aos poucos se aglomeram em torno de uma cena que se tornou familiar a qualquer morador da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro: a remoção de moradores de rua, executada quase sempre de forma pouco amistosa por policiais da guarda municipal.
Chama a atenção a reação de duas senhoras, completamente histéricas, que incitam a guarda ao recrudescimento, sob a alegação de que a criança ali deitada era um marginal. Elas o reconhecem e garantem ser ele um dos pivetes que as haviam assaltado na semana anterior. A justiça parece cada vez mais fácil de ser executada: uma simples acusação torna uma criança pobre e abandonada alguém indefensável, e isto parece não surpreender mais. Sinto-me humanamente ameaçada com tanta vulnerabilidade.
A criança resiste. Mantém, depois de ter sido levantada aos chutes pelos policiais, a cabeça enterrada no meio das pernas, dentro da camiseta suja e surrada. Tento dialogar com os policiais para entender o que está acontecendo e para onde pretendem levá-lo. Parece que o policial está mais interessado em dialogar com as senhoras e me ignora francamente, enquanto insisto na minha inútil e despropositada abordagem.
Uma última tentativa de reverter a situação fez-se inútil, deixando-me desolada. Coloco-me de cócoras, na altura da criança, e falo-lhe como quem fala a um camarada: ei, o que está acontecendo aqui, você pode me dizer? Estou do seu lado e quero te ajudar. A criança, que não deve ter mais do que dez anos de idade, já não confia mais em ninguém, já não acredita mais em solidariedade. Ignora meus apelos e se mantém muda, de cabeça enterrada.
Me distancio do tumulto e me mantenho alarmada. Minha pergunta nesta manhã de terça-feira é acerca do mundo em que vivo, onde cenas como esta se misturam à paisagem, numa dinâmica perfeitamente adaptada. Uma criança como outra qualquer, demandante de cuidados, vê-se confrontada com um mundo banhado de hostilidade. Sem saída, sem promessa de futuro, sem escola, sem amigos, sem camaradagem, sua figura suja e maltratada se confunde com o lixo que é recolhido nas esquinas da cidade. Marginal, pivete, bandido, a polícia procede a limpeza das ruas, e a vida segue sem grandes novidades.
Chama a atenção a reação de duas senhoras, completamente histéricas, que incitam a guarda ao recrudescimento, sob a alegação de que a criança ali deitada era um marginal. Elas o reconhecem e garantem ser ele um dos pivetes que as haviam assaltado na semana anterior. A justiça parece cada vez mais fácil de ser executada: uma simples acusação torna uma criança pobre e abandonada alguém indefensável, e isto parece não surpreender mais. Sinto-me humanamente ameaçada com tanta vulnerabilidade.
A criança resiste. Mantém, depois de ter sido levantada aos chutes pelos policiais, a cabeça enterrada no meio das pernas, dentro da camiseta suja e surrada. Tento dialogar com os policiais para entender o que está acontecendo e para onde pretendem levá-lo. Parece que o policial está mais interessado em dialogar com as senhoras e me ignora francamente, enquanto insisto na minha inútil e despropositada abordagem.
Uma última tentativa de reverter a situação fez-se inútil, deixando-me desolada. Coloco-me de cócoras, na altura da criança, e falo-lhe como quem fala a um camarada: ei, o que está acontecendo aqui, você pode me dizer? Estou do seu lado e quero te ajudar. A criança, que não deve ter mais do que dez anos de idade, já não confia mais em ninguém, já não acredita mais em solidariedade. Ignora meus apelos e se mantém muda, de cabeça enterrada.
Me distancio do tumulto e me mantenho alarmada. Minha pergunta nesta manhã de terça-feira é acerca do mundo em que vivo, onde cenas como esta se misturam à paisagem, numa dinâmica perfeitamente adaptada. Uma criança como outra qualquer, demandante de cuidados, vê-se confrontada com um mundo banhado de hostilidade. Sem saída, sem promessa de futuro, sem escola, sem amigos, sem camaradagem, sua figura suja e maltratada se confunde com o lixo que é recolhido nas esquinas da cidade. Marginal, pivete, bandido, a polícia procede a limpeza das ruas, e a vida segue sem grandes novidades.
domingo, 5 de agosto de 2007
SOCIEDADE DECAPITADA
Em uma das ruas do Rio - como tantas ruas do Rio - um menino de pés descalços - como tantos meninos de pés descalços – me chamou de tia e me pediu um real. “eu não sou bandido não”, insistiu ele diante das minhas passadas largas, emparelhando seus passos com os meus sem desistir do que queria: apenas um real.
Seu nome é Jonathan, ele tem treze anos e tem um único sapato que guarda pra ir pra escola. Um dia frio e chuvoso, Jonathan anda pelas ruas mal agasalhado, me conta que seu chinelo arrebentou a tira e eu que ele não pode gastar seus sapatos, na escola não posso entrar descalço. Jonathan mora no Morro Dona Marta e quase me convence de que a vida é bela com seu sorriso ingênuo e sua cara de moleque. Eu passaria horas ouvindo suas histórias, seu tom de pedinte tornou ares de narrador e nossas passadas assumiram o mesmo ritmo confidente. É uma pena, digo a ele, mas preciso ir.
Pensei em comprar um chinelo pra Jonathan, mas já era tarde, não haviam lojas abertas naquele pedaço. Não posso dar meu dinheiro do taxi pra ele, vou voltar tarde pra casa. Pensei em dar meu telefone, mas e a coragem de me envolver de verdade? Deixei Jonathan ir embora, com sua moeda reluzente estampada na palma da mão e um monte de projetos na cabeça: vou juntar mais nove dessas e comprar um chinelo pra mim, dizia ele enquanto se afastava.
“Pensamentos e visões de um decapitado” era um texto de Antoine Wiertz citado por Benjamim, que não me saía da cabeça enquanto pensava em Jonathan tentando se mover naquela noite chuvosa, cobrindo as feridas abertas em seu corpo pequeno, frágil e mal alimentado. “O que sofre quem é executado assim não pode ser reproduzido pela linguagem humana”, diz o autor enquanto narra. “Chega um momento em que o executado pensa que está estendendo as mãos crispadas, trêmulas em direção à cabeça. É o instinto que nos faz tapar com a mão a ferida aberta. Isso se dá com o intuito, com o horroroso intuito de recolocar a cabeça em cima do tronco, para guardar mais um pouco de sangue, mais um pouco de vida...”
Quantas mãos ainda se estenderão frente a seus corpos decapitados, iludidas por algum resto de sangue que ainda corre pelas veias de uma cidade atormentada? “Ainda não é a morte”, prossegue a narrativa do decapitado “a cabeça continua pensando e sofrendo”. Talvez a morte em vida que os versos de João Cabral revelam, seja essa morte que nos atravessa como o fio da navalha, produzindo o corte fatal de uma sociedade partida, que inutilmente estende a mão para o que ainda pulsa à sua volta.
“Já está morto e continuará a sofrer assim? Talvez por toda a eternidade?” é a pergunta que me faço acerca de Jonathan e de todas as crianças descalças que pelas ruas perambulam, revelando a face mais cruel dessa navalha. Continuo meu percurso de sempre, quase acostumada ao abandono que me cerca e do qual também faço parte.
Seu nome é Jonathan, ele tem treze anos e tem um único sapato que guarda pra ir pra escola. Um dia frio e chuvoso, Jonathan anda pelas ruas mal agasalhado, me conta que seu chinelo arrebentou a tira e eu que ele não pode gastar seus sapatos, na escola não posso entrar descalço. Jonathan mora no Morro Dona Marta e quase me convence de que a vida é bela com seu sorriso ingênuo e sua cara de moleque. Eu passaria horas ouvindo suas histórias, seu tom de pedinte tornou ares de narrador e nossas passadas assumiram o mesmo ritmo confidente. É uma pena, digo a ele, mas preciso ir.
Pensei em comprar um chinelo pra Jonathan, mas já era tarde, não haviam lojas abertas naquele pedaço. Não posso dar meu dinheiro do taxi pra ele, vou voltar tarde pra casa. Pensei em dar meu telefone, mas e a coragem de me envolver de verdade? Deixei Jonathan ir embora, com sua moeda reluzente estampada na palma da mão e um monte de projetos na cabeça: vou juntar mais nove dessas e comprar um chinelo pra mim, dizia ele enquanto se afastava.
“Pensamentos e visões de um decapitado” era um texto de Antoine Wiertz citado por Benjamim, que não me saía da cabeça enquanto pensava em Jonathan tentando se mover naquela noite chuvosa, cobrindo as feridas abertas em seu corpo pequeno, frágil e mal alimentado. “O que sofre quem é executado assim não pode ser reproduzido pela linguagem humana”, diz o autor enquanto narra. “Chega um momento em que o executado pensa que está estendendo as mãos crispadas, trêmulas em direção à cabeça. É o instinto que nos faz tapar com a mão a ferida aberta. Isso se dá com o intuito, com o horroroso intuito de recolocar a cabeça em cima do tronco, para guardar mais um pouco de sangue, mais um pouco de vida...”
Quantas mãos ainda se estenderão frente a seus corpos decapitados, iludidas por algum resto de sangue que ainda corre pelas veias de uma cidade atormentada? “Ainda não é a morte”, prossegue a narrativa do decapitado “a cabeça continua pensando e sofrendo”. Talvez a morte em vida que os versos de João Cabral revelam, seja essa morte que nos atravessa como o fio da navalha, produzindo o corte fatal de uma sociedade partida, que inutilmente estende a mão para o que ainda pulsa à sua volta.
“Já está morto e continuará a sofrer assim? Talvez por toda a eternidade?” é a pergunta que me faço acerca de Jonathan e de todas as crianças descalças que pelas ruas perambulam, revelando a face mais cruel dessa navalha. Continuo meu percurso de sempre, quase acostumada ao abandono que me cerca e do qual também faço parte.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
TANTO FAZ FICAR VIVO?
Acabei de ler "O Estrangeiro" de Albert Camus e no início do relato, aparentemente descomprometido com a realidade à sua volta, pensei: deveria estar lendo sobre coisas mais urgentes, afinal o sofrimento individual quase sempre se apresenta como desinteressante do ponto de vista político social.
O último capítulo do livro é um soco no estômago para quem ainda se ilude com a escrita de Camus. Um homem banal, numa perspectiva banal frente à vida, agindo com base no “tanto faz”, de um instante para o outro se vê diante da morte e desperta para os anos perdidos à sua frente. Seu ateísmo confrontado com a fé do capelão que vem assistí-lo em suas últimas horas de vida resulta em um debate de raríssima beleza, lugar onde a vida e a morte se apresentam com toda a sua poesia e horror.
“Tão perto da morte (...) também eu me sinto pronto para reviver tudo. Como se essa grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo.” A eterna indiferença diante da vida, sob a perspectiva da morte, apresenta a sua face de certeza radical. É somente por ser capaz de continuar desejando um mundo melhor, que ele se mantém vivo por mais algumas horas.
Camus nos convida a ter esperanças, enquanto a escrita o mantém vivo em nossa memória, nos causando horror todas as vezes que optamos pelo “tanto faz”. A perspectiva da morte presente em nossa memória de forma radical é o que nos permite a valorização permanente da vida. Não somente da nossa morte, mas de todas as mortes injustas, praticadas por leis injustas. Não podemos nos esquecer um só minuto que o “tanto faz” é o decreto de morte antecipado. Nosso e de todos os que nos cercam.
O último capítulo do livro é um soco no estômago para quem ainda se ilude com a escrita de Camus. Um homem banal, numa perspectiva banal frente à vida, agindo com base no “tanto faz”, de um instante para o outro se vê diante da morte e desperta para os anos perdidos à sua frente. Seu ateísmo confrontado com a fé do capelão que vem assistí-lo em suas últimas horas de vida resulta em um debate de raríssima beleza, lugar onde a vida e a morte se apresentam com toda a sua poesia e horror.
“Tão perto da morte (...) também eu me sinto pronto para reviver tudo. Como se essa grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo.” A eterna indiferença diante da vida, sob a perspectiva da morte, apresenta a sua face de certeza radical. É somente por ser capaz de continuar desejando um mundo melhor, que ele se mantém vivo por mais algumas horas.
Camus nos convida a ter esperanças, enquanto a escrita o mantém vivo em nossa memória, nos causando horror todas as vezes que optamos pelo “tanto faz”. A perspectiva da morte presente em nossa memória de forma radical é o que nos permite a valorização permanente da vida. Não somente da nossa morte, mas de todas as mortes injustas, praticadas por leis injustas. Não podemos nos esquecer um só minuto que o “tanto faz” é o decreto de morte antecipado. Nosso e de todos os que nos cercam.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Por uma realidade digna de reflexão
Os amigos e parceiros com os quais me relaciono profissional e socialmente, discutem política e aspiram soluções. Seja numa mesa de bar numa sexta-feira descompromissada, seja em meio a algum embate ideológico de proporções maiores.
O descontentamento com a realidade resulta em discussões acerca dos caminhos possíveis e das soluções cabíveis. Não é mais possível conviver com famílias dormindo nas ruas, crianças vendendo balas de madrugada em mesas de bar, assaltos nos sinais de trânsito, tiroteios nas vias expressas e o que é mais grave, a realidade das favelas e as reais condições em que vivem milhares de famílias neste Rio de Janeiro permeado de contradições.
A princípio queremos todos a mesma coisa: justiça social com a diminuição da desigualdade assustadoramente desproporcional. Os instrumentos capazes de promover esta de mudança parecem claros numa primeira e superficial visão: uma política social de distribuição de renda unido a um projeto educacional que dê ao povo condições de se organizar articuladamente, buscando por meio deste projeto, as possíveis soluções.
Quando partimos para a realidade e verificamos as ações políticas em andamento, por outro lado, percebemos que o que parece simples se complexifica no embate ideológico e nos diferentes níveis de conformação. O clima de descontentamento se vê ratificado por uma imprensa manipuladora, cujas informações são acolhidas com entusiasmo e crença desmedida, emperrando qualquer nível de discussão.
As recentes ações de Hugo Chavez na Venezuela servem como exemplo desta divisão. Se de um lado temos um presidente que não faz nada – não privatiza o setor aéreo, por exemplo – por outro temos um ditador que arbitra o fechamento de um canal de televisão, produzindo, como era de se esperar, reações duras da nossa imprensa marrom.
Que as elites venezuelanas e as demais elites latinas não se conformem com um governo que age em favor do povo, isso não nos causa espanto ou qualquer outro tipo de reação. Mas que o restante da população resolva se unir ao clima de descontentamento expresso por um jornalismo contaminado, cujos interesses são mantidos com base na conivência, isto sim, nos assusta e nos causa profunda indignação.
Não basta desejar uma sociedade melhor, é preciso trabalhar para que ela se organize em melhores condições. Enquanto acharmos que o problema não é nosso e que não nos cabe o trabalho de reflexão e reconhecimento dos engodos a que somos submetidos, passaremos a vida suspirando o nosso voto lançado nas urnas em vão. Como se votar bastasse, como se governar fosse simples, como se o buraco não fosse mais embaixo e a luta não fosse um compromisso diário com a busca da verdade, camuflada por uma persistente e diabólica tentativa de manipulação.
O descontentamento com a realidade resulta em discussões acerca dos caminhos possíveis e das soluções cabíveis. Não é mais possível conviver com famílias dormindo nas ruas, crianças vendendo balas de madrugada em mesas de bar, assaltos nos sinais de trânsito, tiroteios nas vias expressas e o que é mais grave, a realidade das favelas e as reais condições em que vivem milhares de famílias neste Rio de Janeiro permeado de contradições.
A princípio queremos todos a mesma coisa: justiça social com a diminuição da desigualdade assustadoramente desproporcional. Os instrumentos capazes de promover esta de mudança parecem claros numa primeira e superficial visão: uma política social de distribuição de renda unido a um projeto educacional que dê ao povo condições de se organizar articuladamente, buscando por meio deste projeto, as possíveis soluções.
Quando partimos para a realidade e verificamos as ações políticas em andamento, por outro lado, percebemos que o que parece simples se complexifica no embate ideológico e nos diferentes níveis de conformação. O clima de descontentamento se vê ratificado por uma imprensa manipuladora, cujas informações são acolhidas com entusiasmo e crença desmedida, emperrando qualquer nível de discussão.
As recentes ações de Hugo Chavez na Venezuela servem como exemplo desta divisão. Se de um lado temos um presidente que não faz nada – não privatiza o setor aéreo, por exemplo – por outro temos um ditador que arbitra o fechamento de um canal de televisão, produzindo, como era de se esperar, reações duras da nossa imprensa marrom.
Que as elites venezuelanas e as demais elites latinas não se conformem com um governo que age em favor do povo, isso não nos causa espanto ou qualquer outro tipo de reação. Mas que o restante da população resolva se unir ao clima de descontentamento expresso por um jornalismo contaminado, cujos interesses são mantidos com base na conivência, isto sim, nos assusta e nos causa profunda indignação.
Não basta desejar uma sociedade melhor, é preciso trabalhar para que ela se organize em melhores condições. Enquanto acharmos que o problema não é nosso e que não nos cabe o trabalho de reflexão e reconhecimento dos engodos a que somos submetidos, passaremos a vida suspirando o nosso voto lançado nas urnas em vão. Como se votar bastasse, como se governar fosse simples, como se o buraco não fosse mais embaixo e a luta não fosse um compromisso diário com a busca da verdade, camuflada por uma persistente e diabólica tentativa de manipulação.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
QUEREMOS PAZ, MAS COM JUSTIÇA SOCIAL
Três jovens da classe média de Brasília foram indiciados ontem por terem planejado, pela internet, segundo a polícia, a morte de um adolescente. A delegada não achou necessário pedir a prisão preventiva dos jovens porque eles estudam, têm endereço fixo e moram com a família.
Enquanto isso, o Jornal do Brasil estampa em uma de suas páginas que 81% da população brasileira defende a redução da maioridade penal. Numa das cartas aos leitores do Globo, uma leitora quer saber até quando vão continuar acontecendo mortes horrendas no asfalto, sem uma ação enérgica por parte das autoridades que faça a violência parar.
As autoridades fazem sim: elas sobem o morro e matam. Matam jovens adolescentes, negros e pobres. Adolescentes que não têm casa, não estudam e não têm família, como os jovens de classe média de Brasília. Tais mortes ainda recebem o apoio da população que diz: é bandido, tem mais é que matar!
Hoje, 500 pessoas saem às ruas para lamentar a morte de João Helio, pedindo paz. Não teremos paz enquanto acharmos que somos nós as maiores vítimas da violência praticada. E que a punição é a solução primeira para o mal estar.
Não teremos paz enquanto comermos tranquilamente o nosso pão, sabendo que milhares precisam mendigar. Não teremos paz enquanto dormirmos sossegadamente debaixo do nosso teto confortável, sabendo que milhares não têm onde morar. Não teremos paz enquanto desfrutarmos da educação e do lazer a que temos acesso, sabendo que milhares não sabem ler nem escrever, milhares não conseguem se articular.
Enquanto a polícia nos protege, milhares ficam desprotegidos, sendo assassinados impunemente todos os dias. E não viram notícias de jornal e nem produzem algum tipo de comoção social. Porque são pretos, pobres e favelados.
Então que sociedade é essa que quer tanto paz? Sem justiça não há como aplacar os ódios e diminuir as desigualdades. Queremos paz sim, mas não uma paz forjada por tablóides sensacionalistas de jornais. Não podemos ter paz enquanto a justiça não se realizar.
Enquanto isso, o Jornal do Brasil estampa em uma de suas páginas que 81% da população brasileira defende a redução da maioridade penal. Numa das cartas aos leitores do Globo, uma leitora quer saber até quando vão continuar acontecendo mortes horrendas no asfalto, sem uma ação enérgica por parte das autoridades que faça a violência parar.
As autoridades fazem sim: elas sobem o morro e matam. Matam jovens adolescentes, negros e pobres. Adolescentes que não têm casa, não estudam e não têm família, como os jovens de classe média de Brasília. Tais mortes ainda recebem o apoio da população que diz: é bandido, tem mais é que matar!
Hoje, 500 pessoas saem às ruas para lamentar a morte de João Helio, pedindo paz. Não teremos paz enquanto acharmos que somos nós as maiores vítimas da violência praticada. E que a punição é a solução primeira para o mal estar.
Não teremos paz enquanto comermos tranquilamente o nosso pão, sabendo que milhares precisam mendigar. Não teremos paz enquanto dormirmos sossegadamente debaixo do nosso teto confortável, sabendo que milhares não têm onde morar. Não teremos paz enquanto desfrutarmos da educação e do lazer a que temos acesso, sabendo que milhares não sabem ler nem escrever, milhares não conseguem se articular.
Enquanto a polícia nos protege, milhares ficam desprotegidos, sendo assassinados impunemente todos os dias. E não viram notícias de jornal e nem produzem algum tipo de comoção social. Porque são pretos, pobres e favelados.
Então que sociedade é essa que quer tanto paz? Sem justiça não há como aplacar os ódios e diminuir as desigualdades. Queremos paz sim, mas não uma paz forjada por tablóides sensacionalistas de jornais. Não podemos ter paz enquanto a justiça não se realizar.
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