Os discos eram de vinil, em várias rotações, pesavam, quebravam e papai ficava zangado com qualquer arranhão. Eu passava as tardes de banho tomado na sala da antiga casa, ouvindo e aprendendo velhas e populares canções: do brega ao chique, cantava de cor qualquer modinha, especialmente o refrão. Da morte de Pixinguinha, da tristeza de papai e dos discos conservados em homenagem àquele que compôs a mais ouvida das melodias do seu tempo, guardo as notas antigas misturadas às tardes raras, iluminadas pela poesia que escorria dos porões.
As músicas vinham do morro e isto a gente aprendia de travessão. O morro, lugar de vagabundo, de malandro negro safado, era assim que se dizia naquele tempo em que as palavras eram curtas e o medo tomava conta das mentes empobrecidas de informação. Enquanto a poesia brotava e obrigava as casas a abrirem suas portas e janelas praquela euforia de vozes e instrumentos, eu ia gravando os rostos, os nomes... e entre um deles estava Jamelão. Nome da arvore da infância, que a gente subia pra ver a paisagem do alto e contemplar a sujeira do chão. Ou balançar no balanço pendurado em um de seus galhos fortes. Ou simplesmente desfrutar de sua sombra e apreciar seu fruto estranho, cuja arrebentação se misturava ao colorido da terra, numa estranha e permanente visão.
Jamelão, um negro do morro, morre aos 95 anos e eu fui dar o último adeus à minha memória, escondida em tantas vozes e cores de antigamente. Pela primeira vez visitei uma favela, comi sardinha frita trazida do alto, cerveja Skol de garrafa a 2,50, música pra todos os gostos, gente passeando na rua, criança fazendo aniversário, bolo no meio da praça, barulho de tiro. Não liga não, e normal, aqui você se acostuma. Fica tranqüila, dizia o meu anfitrião.
A quadra da Mangueira estava repleta de carros do lado de fora, na porta os caminhões e muitos jornalistas de plantão. Gente dando entrevista, a viúva recepcionando os convidados, o neto elegantemente vestido ao lado do caixão. Orgulho de avô, pensei, fica guardado como uma fotografia de recordação. Um velho que de terno azul marinho e blusa rosa por baixo, chapéu de palha com fita rosa, chegou acompanhado da esposa e da filha, olhou o amigo no caixão de depois se sentou em um canto da quadra.
A viúva, com seu mesmo turbante rosa, sua blusa rosa choque e sua calça verde arregalado, recebia os convidados e dava entrevista pra televisão. Seu rosto de traços fortes misturado à uma elegância natural, davam-lhe uma beleza calculada e preenchida com uma vida diferente das demais. As mulheres naquele lugar são iguais às outras, mas bebem muito mais cerveja e andam pelas ruas sozinhas, participam das rodas de discussão. Essa era a fantasia que permeava o meu olhar curioso, cheio de elucubrações.
Meu amigo me perguntava se estava tudo bem e eu achando desnecessária a pergunta, respondia sempre com uma afirmação. Não foi diferente a vida que eu vivi na minha infância, em casas que eram construídas em frente a enormes valões. Não me assusto com as diferenças, com os becos escuros, com modos e aparências distintas. Ser esquisito pode ser o começo da revolução, pensava enquanto lutava contra as esquisitices que me ensinaram durante a vida e que não combinam com a realidade por alguma outra razão.
A razão que explica a desigualdade, o preconceito e a desinformação foi vivida em forma de deboche por Jamelão. Com seu elastiquinho pendurado na mão, reclamando de cachê pra pagar a conta da luz, viveu sua fama de pão duro que tem ojeriza à escravidão. Lamentou repetidas vezes não ser reconhecido e bem pago, como um dos maiores intérpretes da sua época. Sua morte é anunciada hoje em todos os jornais do mundo, enquanto a favela continua fabricando frutas doces, de cor preta e sabor ácido. Eles nascem, crescem e morrem tingindo as calçadas do mundo com suas cores berrantes, suas vozes, suas canções. Nos ensinando que a diferença produz poesia e aproximação, enquanto a desigualdade continua manchando indiscriminadamente o nosso chão.
domingo, 15 de junho de 2008
domingo, 18 de maio de 2008
Urbanidade
Ontem saí de casa atrasada para um compromisso de trabalho e quando cheguei no ponto do ônibus me dei conta, bastante aflita, de que não tinha o dinheiro trocado para a passagem, apenas cinqüenta reais inteiros. Sempre tenho o cuidado de andar com pratinhas, facilitando o trabalho dos trocadores, especialmente quando eles são ao mesmo tempo motoristas. Não me custa ser gentil, antes de entrar no ônibus eu sempre dou bom dia, esse é um hábito que normalmente facilita as relações, nos humaniza.
Havia uma menina com um bebê no colo e eu sorri para ela assim que entrei, fazia um dia bonito. Retirei a nota de cinqüenta da carteira e disse: desculpe, mas eu não tenho trocado e não tive tempo de passar no jornaleiro, comprar um jornal, uma revista. A trocadora me disse que não tinha troco e eu insisti: e como resolveremos isso? Ela me respondeu secamente: fale com o motorista.O mal humor instalado naquele lugar não se demovia com meus gestos de gentileza e voz macia.
Me aproximei do motorista e disse, com o maior respeito que eu lhe devia: desculpe incomodar seu trabalho, mas é que estou com uma nota de cinqüenta reais e a trocadora não tem troco, será que eu poderia viajar aqui na frente, descerei algumas quadras adiante, na esquina da Bolivar. A essa altura eu vinha do começo de Copacabana e já estava quase na esquina da Siqueira Campos, umas quatro quadras percorridas. Imediatamente ele parou o ônibus e disse que eu deveria descer, que eu não poderia viajar na frente, era proibido.
Surpresa com a reação do motorista, tentei argumentar sobre os meus direitos e voltei para a trocadora, quase enfurecida: eu quero ver a lei que me proíbe de viajar por não ter dinheiro trocado. A trocadora com ar de deboche me dizia, com seu português macarrônico, enquanto eu a corrigia: a gente não podemos, não minha filha, nós não podemos! Estamos entendidas? Eu quero saber o que diz a lei, você sabe me dizer? É claro que ela não sabia, nem eu. E que os demais passageiros já começavam a ficar irritados com a minha insolência e me cobriam de vaias, enquanto eu desistia.
Desci do ônibus e anotei a placa, pensando: vou processar essa porcaria! Dias antes eu havia visto uma cena que me constrangera e me deixara pensativa: uma senhora esbarra em um rapaz e pede desculpas. O rapaz se volta pra ela e diz: sabia que eu posso te processar por isso? Era o vendedor de uma loja e ele estava fazendo uma piada ridícula. Não vou processar ninguém, vou simplesmente escrever um texto e colocar na minha página um desabafo aflito.
Não quero mais discutir os meus direitos, sei que poderia abrir um processo e colocar uma empresa na justiça. Para isso eu precisaria de testemunhas, de uma ocorrência policial, de uma ida à delegacia. Estou sempre atrasada, não tenho tempo para isso. E quanto mais corro, mais me assusto com esta sociedade urbana em que vivo, truculenta, desumana e tão cheia de vícios. Que me obrigam a pensar essas coisas enquanto ando à pé para o meu compromisso. Entre camelôs, moradores de rua e sirenes de polícia.
Havia uma menina com um bebê no colo e eu sorri para ela assim que entrei, fazia um dia bonito. Retirei a nota de cinqüenta da carteira e disse: desculpe, mas eu não tenho trocado e não tive tempo de passar no jornaleiro, comprar um jornal, uma revista. A trocadora me disse que não tinha troco e eu insisti: e como resolveremos isso? Ela me respondeu secamente: fale com o motorista.O mal humor instalado naquele lugar não se demovia com meus gestos de gentileza e voz macia.
Me aproximei do motorista e disse, com o maior respeito que eu lhe devia: desculpe incomodar seu trabalho, mas é que estou com uma nota de cinqüenta reais e a trocadora não tem troco, será que eu poderia viajar aqui na frente, descerei algumas quadras adiante, na esquina da Bolivar. A essa altura eu vinha do começo de Copacabana e já estava quase na esquina da Siqueira Campos, umas quatro quadras percorridas. Imediatamente ele parou o ônibus e disse que eu deveria descer, que eu não poderia viajar na frente, era proibido.
Surpresa com a reação do motorista, tentei argumentar sobre os meus direitos e voltei para a trocadora, quase enfurecida: eu quero ver a lei que me proíbe de viajar por não ter dinheiro trocado. A trocadora com ar de deboche me dizia, com seu português macarrônico, enquanto eu a corrigia: a gente não podemos, não minha filha, nós não podemos! Estamos entendidas? Eu quero saber o que diz a lei, você sabe me dizer? É claro que ela não sabia, nem eu. E que os demais passageiros já começavam a ficar irritados com a minha insolência e me cobriam de vaias, enquanto eu desistia.
Desci do ônibus e anotei a placa, pensando: vou processar essa porcaria! Dias antes eu havia visto uma cena que me constrangera e me deixara pensativa: uma senhora esbarra em um rapaz e pede desculpas. O rapaz se volta pra ela e diz: sabia que eu posso te processar por isso? Era o vendedor de uma loja e ele estava fazendo uma piada ridícula. Não vou processar ninguém, vou simplesmente escrever um texto e colocar na minha página um desabafo aflito.
Não quero mais discutir os meus direitos, sei que poderia abrir um processo e colocar uma empresa na justiça. Para isso eu precisaria de testemunhas, de uma ocorrência policial, de uma ida à delegacia. Estou sempre atrasada, não tenho tempo para isso. E quanto mais corro, mais me assusto com esta sociedade urbana em que vivo, truculenta, desumana e tão cheia de vícios. Que me obrigam a pensar essas coisas enquanto ando à pé para o meu compromisso. Entre camelôs, moradores de rua e sirenes de polícia.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Sobreviverei
Fui ao cinema assistir um filme alemão que haviam me recomendado e acabei entrando na porta errada. Para minha surpresa – eu não havia consultado o jornal, descobri na hora – a primeira produção hollywoodiana de Hersog acabara de entrar em cartaz: o sobrevivente. Não havia dúvidas de que valeria à pena mudar de rota.
Os primeiros cinco minutos do filme não parecem dizer nada, além de um inglês de causar estranheza a quem está acostumado com o cineasta e suas produções alemãs clássicas. Rostos moldados por Hollywood, no entanto, se perdem, quando com eles já se quer alguém acostumado. As tomadas de cena que seguem as primeiras falas, suportam um roteiro cuidadosamente recortado, tal como nos ensina a velha magia de quem sabe o que fazer com as imagens.
O tema seria banal e repetitivo, se não fossem os caminhos percorridos, que não deixam falsas pegadas. Um anti-herói ingênuo e íntegro, não se comunica por meio de ideologias consagradas. Seu sonho de ser aviador é simples, brutal, como a realidade que cerca as conseqüências de um ato que não se pretende arrojado. Perdido na selva vietnamita, preso e torturado, ele procura um sorriso, uma saída, uma fuga, uma cobra de alimento, qualquer coisa que lhe faça continuar vivo, até ser milagrosamente resgatado.
Sua chegada em solo seguro é recebida por uma multidão que o consagra como um herói, a velha piada. Ao ser indagado por repórteres acerca do segredo pra se sobreviver, sem saber o que dizer, declara: é preciso encher o que está vazio e esvaziar o que está cheio. Saí do cinema com essas palavras. Depois de tanto esforço pra suportar cenas duras e impactantes, carregadas de um realismo exacerbado, pensei: então esse era o recado! Apenas uma idéia na cabeça de um homem que desejou ficar vivo, com a intensidade de quem acredita no próprio ato.
Resolvi entender o recado e pensar nas coisas que esvaziaria antes que o ano acabasse, e o que encheria pra continuar viva, acreditando em alguma possibilidade. Esta é a função do cinema: nos fazer criar uma outra realidade. Talvez eu não fique nem mais leve nem mais pesada. Mas certamente sobreviverei, e por enquanto isso me basta.
Os primeiros cinco minutos do filme não parecem dizer nada, além de um inglês de causar estranheza a quem está acostumado com o cineasta e suas produções alemãs clássicas. Rostos moldados por Hollywood, no entanto, se perdem, quando com eles já se quer alguém acostumado. As tomadas de cena que seguem as primeiras falas, suportam um roteiro cuidadosamente recortado, tal como nos ensina a velha magia de quem sabe o que fazer com as imagens.
O tema seria banal e repetitivo, se não fossem os caminhos percorridos, que não deixam falsas pegadas. Um anti-herói ingênuo e íntegro, não se comunica por meio de ideologias consagradas. Seu sonho de ser aviador é simples, brutal, como a realidade que cerca as conseqüências de um ato que não se pretende arrojado. Perdido na selva vietnamita, preso e torturado, ele procura um sorriso, uma saída, uma fuga, uma cobra de alimento, qualquer coisa que lhe faça continuar vivo, até ser milagrosamente resgatado.
Sua chegada em solo seguro é recebida por uma multidão que o consagra como um herói, a velha piada. Ao ser indagado por repórteres acerca do segredo pra se sobreviver, sem saber o que dizer, declara: é preciso encher o que está vazio e esvaziar o que está cheio. Saí do cinema com essas palavras. Depois de tanto esforço pra suportar cenas duras e impactantes, carregadas de um realismo exacerbado, pensei: então esse era o recado! Apenas uma idéia na cabeça de um homem que desejou ficar vivo, com a intensidade de quem acredita no próprio ato.
Resolvi entender o recado e pensar nas coisas que esvaziaria antes que o ano acabasse, e o que encheria pra continuar viva, acreditando em alguma possibilidade. Esta é a função do cinema: nos fazer criar uma outra realidade. Talvez eu não fique nem mais leve nem mais pesada. Mas certamente sobreviverei, e por enquanto isso me basta.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
De quem é o caminho?
Vamos desenhar um caminho? me diz a criança no consultório. Um menino de sete anos de idade, vinha acompanhado da mãe e já na entrada do hospital me causou surpresa o modo como andava: sacudia os braços em círculos no ar, como se abrisse caminho no vento pra conseguir passagem. Já fazia algum tempo que ele vinha e a queixa era feita pela mãe: um menino muito agressivo.
Nas primeiras entrevistas, colocava tudo de cabeça pra baixo, chutava, batia. Aos poucos foi dando vida aos carrinhos que iam pra guerra, as mortes, os bandidos. Seu pai morrera com um choque no liquidificador, quando ele ainda estava na barriga da mãe e este era o drama que envolvia aquela família, composta de mãe e filho.
Sim, vamos, respondi depois de colocar duas folhas de papel, lápis e borracha sobre a mesa, sentando-me em seguida. Vi que ele desenhava distraído da minha presença, absorto, determinado, decidido. Enquanto eu apenas repetia, não entrando na brincadeira do jeito que me foi oferecida. Para comodidade minha, perguntei se poderia copiar o dele, que me parecia já bem definido. Afinal o que eu colocaria no meu caminho, como explicaria aquela brincadeira sem sentido? Imediatamente ele interrompeu o desenho, colocou o lápis sobre a mesa, me olhou e disse bem sério: é claro que não, você não sabe que cada um tem que ter o seu caminho?
Já faz muitos anos e este era o início da minha clínica. Mas nunca mais esqueci aquele menino. Quase sempre penso no pedido que via em seu rosto: que lhe deixassem respirar sozinho. Ao mesmo tempo admiro a sua coragem de se rebelar contra o meu conformismo. É claro que era só uma brincadeira, mas quem disse que ele queria saber disso?
Nas primeiras entrevistas, colocava tudo de cabeça pra baixo, chutava, batia. Aos poucos foi dando vida aos carrinhos que iam pra guerra, as mortes, os bandidos. Seu pai morrera com um choque no liquidificador, quando ele ainda estava na barriga da mãe e este era o drama que envolvia aquela família, composta de mãe e filho.
Sim, vamos, respondi depois de colocar duas folhas de papel, lápis e borracha sobre a mesa, sentando-me em seguida. Vi que ele desenhava distraído da minha presença, absorto, determinado, decidido. Enquanto eu apenas repetia, não entrando na brincadeira do jeito que me foi oferecida. Para comodidade minha, perguntei se poderia copiar o dele, que me parecia já bem definido. Afinal o que eu colocaria no meu caminho, como explicaria aquela brincadeira sem sentido? Imediatamente ele interrompeu o desenho, colocou o lápis sobre a mesa, me olhou e disse bem sério: é claro que não, você não sabe que cada um tem que ter o seu caminho?
Já faz muitos anos e este era o início da minha clínica. Mas nunca mais esqueci aquele menino. Quase sempre penso no pedido que via em seu rosto: que lhe deixassem respirar sozinho. Ao mesmo tempo admiro a sua coragem de se rebelar contra o meu conformismo. É claro que era só uma brincadeira, mas quem disse que ele queria saber disso?
domingo, 30 de setembro de 2007
UMA LIMPEZA NA CIDADE
Numa manhã de terça feira nas ruas de Ipanema, um procedimento de rotina desperta a curiosidade dos transeuntes, que aos poucos se aglomeram em torno de uma cena que se tornou familiar a qualquer morador da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro: a remoção de moradores de rua, executada quase sempre de forma pouco amistosa por policiais da guarda municipal.
Chama a atenção a reação de duas senhoras, completamente histéricas, que incitam a guarda ao recrudescimento, sob a alegação de que a criança ali deitada era um marginal. Elas o reconhecem e garantem ser ele um dos pivetes que as haviam assaltado na semana anterior. A justiça parece cada vez mais fácil de ser executada: uma simples acusação torna uma criança pobre e abandonada alguém indefensável, e isto parece não surpreender mais. Sinto-me humanamente ameaçada com tanta vulnerabilidade.
A criança resiste. Mantém, depois de ter sido levantada aos chutes pelos policiais, a cabeça enterrada no meio das pernas, dentro da camiseta suja e surrada. Tento dialogar com os policiais para entender o que está acontecendo e para onde pretendem levá-lo. Parece que o policial está mais interessado em dialogar com as senhoras e me ignora francamente, enquanto insisto na minha inútil e despropositada abordagem.
Uma última tentativa de reverter a situação fez-se inútil, deixando-me desolada. Coloco-me de cócoras, na altura da criança, e falo-lhe como quem fala a um camarada: ei, o que está acontecendo aqui, você pode me dizer? Estou do seu lado e quero te ajudar. A criança, que não deve ter mais do que dez anos de idade, já não confia mais em ninguém, já não acredita mais em solidariedade. Ignora meus apelos e se mantém muda, de cabeça enterrada.
Me distancio do tumulto e me mantenho alarmada. Minha pergunta nesta manhã de terça-feira é acerca do mundo em que vivo, onde cenas como esta se misturam à paisagem, numa dinâmica perfeitamente adaptada. Uma criança como outra qualquer, demandante de cuidados, vê-se confrontada com um mundo banhado de hostilidade. Sem saída, sem promessa de futuro, sem escola, sem amigos, sem camaradagem, sua figura suja e maltratada se confunde com o lixo que é recolhido nas esquinas da cidade. Marginal, pivete, bandido, a polícia procede a limpeza das ruas, e a vida segue sem grandes novidades.
Chama a atenção a reação de duas senhoras, completamente histéricas, que incitam a guarda ao recrudescimento, sob a alegação de que a criança ali deitada era um marginal. Elas o reconhecem e garantem ser ele um dos pivetes que as haviam assaltado na semana anterior. A justiça parece cada vez mais fácil de ser executada: uma simples acusação torna uma criança pobre e abandonada alguém indefensável, e isto parece não surpreender mais. Sinto-me humanamente ameaçada com tanta vulnerabilidade.
A criança resiste. Mantém, depois de ter sido levantada aos chutes pelos policiais, a cabeça enterrada no meio das pernas, dentro da camiseta suja e surrada. Tento dialogar com os policiais para entender o que está acontecendo e para onde pretendem levá-lo. Parece que o policial está mais interessado em dialogar com as senhoras e me ignora francamente, enquanto insisto na minha inútil e despropositada abordagem.
Uma última tentativa de reverter a situação fez-se inútil, deixando-me desolada. Coloco-me de cócoras, na altura da criança, e falo-lhe como quem fala a um camarada: ei, o que está acontecendo aqui, você pode me dizer? Estou do seu lado e quero te ajudar. A criança, que não deve ter mais do que dez anos de idade, já não confia mais em ninguém, já não acredita mais em solidariedade. Ignora meus apelos e se mantém muda, de cabeça enterrada.
Me distancio do tumulto e me mantenho alarmada. Minha pergunta nesta manhã de terça-feira é acerca do mundo em que vivo, onde cenas como esta se misturam à paisagem, numa dinâmica perfeitamente adaptada. Uma criança como outra qualquer, demandante de cuidados, vê-se confrontada com um mundo banhado de hostilidade. Sem saída, sem promessa de futuro, sem escola, sem amigos, sem camaradagem, sua figura suja e maltratada se confunde com o lixo que é recolhido nas esquinas da cidade. Marginal, pivete, bandido, a polícia procede a limpeza das ruas, e a vida segue sem grandes novidades.
domingo, 5 de agosto de 2007
SOCIEDADE DECAPITADA
Em uma das ruas do Rio - como tantas ruas do Rio - um menino de pés descalços - como tantos meninos de pés descalços – me chamou de tia e me pediu um real. “eu não sou bandido não”, insistiu ele diante das minhas passadas largas, emparelhando seus passos com os meus sem desistir do que queria: apenas um real.
Seu nome é Jonathan, ele tem treze anos e tem um único sapato que guarda pra ir pra escola. Um dia frio e chuvoso, Jonathan anda pelas ruas mal agasalhado, me conta que seu chinelo arrebentou a tira e eu que ele não pode gastar seus sapatos, na escola não posso entrar descalço. Jonathan mora no Morro Dona Marta e quase me convence de que a vida é bela com seu sorriso ingênuo e sua cara de moleque. Eu passaria horas ouvindo suas histórias, seu tom de pedinte tornou ares de narrador e nossas passadas assumiram o mesmo ritmo confidente. É uma pena, digo a ele, mas preciso ir.
Pensei em comprar um chinelo pra Jonathan, mas já era tarde, não haviam lojas abertas naquele pedaço. Não posso dar meu dinheiro do taxi pra ele, vou voltar tarde pra casa. Pensei em dar meu telefone, mas e a coragem de me envolver de verdade? Deixei Jonathan ir embora, com sua moeda reluzente estampada na palma da mão e um monte de projetos na cabeça: vou juntar mais nove dessas e comprar um chinelo pra mim, dizia ele enquanto se afastava.
“Pensamentos e visões de um decapitado” era um texto de Antoine Wiertz citado por Benjamim, que não me saía da cabeça enquanto pensava em Jonathan tentando se mover naquela noite chuvosa, cobrindo as feridas abertas em seu corpo pequeno, frágil e mal alimentado. “O que sofre quem é executado assim não pode ser reproduzido pela linguagem humana”, diz o autor enquanto narra. “Chega um momento em que o executado pensa que está estendendo as mãos crispadas, trêmulas em direção à cabeça. É o instinto que nos faz tapar com a mão a ferida aberta. Isso se dá com o intuito, com o horroroso intuito de recolocar a cabeça em cima do tronco, para guardar mais um pouco de sangue, mais um pouco de vida...”
Quantas mãos ainda se estenderão frente a seus corpos decapitados, iludidas por algum resto de sangue que ainda corre pelas veias de uma cidade atormentada? “Ainda não é a morte”, prossegue a narrativa do decapitado “a cabeça continua pensando e sofrendo”. Talvez a morte em vida que os versos de João Cabral revelam, seja essa morte que nos atravessa como o fio da navalha, produzindo o corte fatal de uma sociedade partida, que inutilmente estende a mão para o que ainda pulsa à sua volta.
“Já está morto e continuará a sofrer assim? Talvez por toda a eternidade?” é a pergunta que me faço acerca de Jonathan e de todas as crianças descalças que pelas ruas perambulam, revelando a face mais cruel dessa navalha. Continuo meu percurso de sempre, quase acostumada ao abandono que me cerca e do qual também faço parte.
Seu nome é Jonathan, ele tem treze anos e tem um único sapato que guarda pra ir pra escola. Um dia frio e chuvoso, Jonathan anda pelas ruas mal agasalhado, me conta que seu chinelo arrebentou a tira e eu que ele não pode gastar seus sapatos, na escola não posso entrar descalço. Jonathan mora no Morro Dona Marta e quase me convence de que a vida é bela com seu sorriso ingênuo e sua cara de moleque. Eu passaria horas ouvindo suas histórias, seu tom de pedinte tornou ares de narrador e nossas passadas assumiram o mesmo ritmo confidente. É uma pena, digo a ele, mas preciso ir.
Pensei em comprar um chinelo pra Jonathan, mas já era tarde, não haviam lojas abertas naquele pedaço. Não posso dar meu dinheiro do taxi pra ele, vou voltar tarde pra casa. Pensei em dar meu telefone, mas e a coragem de me envolver de verdade? Deixei Jonathan ir embora, com sua moeda reluzente estampada na palma da mão e um monte de projetos na cabeça: vou juntar mais nove dessas e comprar um chinelo pra mim, dizia ele enquanto se afastava.
“Pensamentos e visões de um decapitado” era um texto de Antoine Wiertz citado por Benjamim, que não me saía da cabeça enquanto pensava em Jonathan tentando se mover naquela noite chuvosa, cobrindo as feridas abertas em seu corpo pequeno, frágil e mal alimentado. “O que sofre quem é executado assim não pode ser reproduzido pela linguagem humana”, diz o autor enquanto narra. “Chega um momento em que o executado pensa que está estendendo as mãos crispadas, trêmulas em direção à cabeça. É o instinto que nos faz tapar com a mão a ferida aberta. Isso se dá com o intuito, com o horroroso intuito de recolocar a cabeça em cima do tronco, para guardar mais um pouco de sangue, mais um pouco de vida...”
Quantas mãos ainda se estenderão frente a seus corpos decapitados, iludidas por algum resto de sangue que ainda corre pelas veias de uma cidade atormentada? “Ainda não é a morte”, prossegue a narrativa do decapitado “a cabeça continua pensando e sofrendo”. Talvez a morte em vida que os versos de João Cabral revelam, seja essa morte que nos atravessa como o fio da navalha, produzindo o corte fatal de uma sociedade partida, que inutilmente estende a mão para o que ainda pulsa à sua volta.
“Já está morto e continuará a sofrer assim? Talvez por toda a eternidade?” é a pergunta que me faço acerca de Jonathan e de todas as crianças descalças que pelas ruas perambulam, revelando a face mais cruel dessa navalha. Continuo meu percurso de sempre, quase acostumada ao abandono que me cerca e do qual também faço parte.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
TANTO FAZ FICAR VIVO?
Acabei de ler "O Estrangeiro" de Albert Camus e no início do relato, aparentemente descomprometido com a realidade à sua volta, pensei: deveria estar lendo sobre coisas mais urgentes, afinal o sofrimento individual quase sempre se apresenta como desinteressante do ponto de vista político social.
O último capítulo do livro é um soco no estômago para quem ainda se ilude com a escrita de Camus. Um homem banal, numa perspectiva banal frente à vida, agindo com base no “tanto faz”, de um instante para o outro se vê diante da morte e desperta para os anos perdidos à sua frente. Seu ateísmo confrontado com a fé do capelão que vem assistí-lo em suas últimas horas de vida resulta em um debate de raríssima beleza, lugar onde a vida e a morte se apresentam com toda a sua poesia e horror.
“Tão perto da morte (...) também eu me sinto pronto para reviver tudo. Como se essa grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo.” A eterna indiferença diante da vida, sob a perspectiva da morte, apresenta a sua face de certeza radical. É somente por ser capaz de continuar desejando um mundo melhor, que ele se mantém vivo por mais algumas horas.
Camus nos convida a ter esperanças, enquanto a escrita o mantém vivo em nossa memória, nos causando horror todas as vezes que optamos pelo “tanto faz”. A perspectiva da morte presente em nossa memória de forma radical é o que nos permite a valorização permanente da vida. Não somente da nossa morte, mas de todas as mortes injustas, praticadas por leis injustas. Não podemos nos esquecer um só minuto que o “tanto faz” é o decreto de morte antecipado. Nosso e de todos os que nos cercam.
O último capítulo do livro é um soco no estômago para quem ainda se ilude com a escrita de Camus. Um homem banal, numa perspectiva banal frente à vida, agindo com base no “tanto faz”, de um instante para o outro se vê diante da morte e desperta para os anos perdidos à sua frente. Seu ateísmo confrontado com a fé do capelão que vem assistí-lo em suas últimas horas de vida resulta em um debate de raríssima beleza, lugar onde a vida e a morte se apresentam com toda a sua poesia e horror.
“Tão perto da morte (...) também eu me sinto pronto para reviver tudo. Como se essa grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo.” A eterna indiferença diante da vida, sob a perspectiva da morte, apresenta a sua face de certeza radical. É somente por ser capaz de continuar desejando um mundo melhor, que ele se mantém vivo por mais algumas horas.
Camus nos convida a ter esperanças, enquanto a escrita o mantém vivo em nossa memória, nos causando horror todas as vezes que optamos pelo “tanto faz”. A perspectiva da morte presente em nossa memória de forma radical é o que nos permite a valorização permanente da vida. Não somente da nossa morte, mas de todas as mortes injustas, praticadas por leis injustas. Não podemos nos esquecer um só minuto que o “tanto faz” é o decreto de morte antecipado. Nosso e de todos os que nos cercam.
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